Vindimas 2020: produtores enfrentam um ano “atípico em todos os sentidos”

O verão está a chegar ao seu término e, com ele, chegou a época das vindimas. Momento aguardado pelos produtores para ver o fruto do seu trabalho ao longo do ano. Porém, tal como 2020, a vindima está a ser atípica, marcada pelos condicionamentos da Covid-19, pelos meses de elevadas temperaturas e pelo míldio. De facto, este ano, a apanha da uva está a sentir uma quebra que, segundo os produtores, poderá variar entre os 20 e os 30%. 

Fernando Guerra, enólogo da Calheiros Cruz, está consciente desse impacto e teme que ultrapasse as quebras previstas pela Associação de Desenvolvimento da Viticultura Duriense (ADVID) no mês de julho. “A nível quantitativo, ainda é difícil dar números porque estamos a meio da vindima. Mas já se ouve dizer que há uma perca grande. Há quintas que já terminaram e que tiveram quebras superiores a 40%. Estava previsto 20 ou 30%, mas, à partida, as quebras vão ser maiores. Alguma parte poderá ser devida ao escaldão, ou também, em algumas zonas, mais húmidas, devido à doença Black Rot; mas nota-se, sobretudo no Baixo Corgo, que as uvas nem sequer nasceram”, explicou o enólogo. 

Por outro lado, Celeste Marques, da Adega Cooperativa de Sabrosa, também sentiu este impacto na produção deste ano. “Começamos a vindima há pouco tempo, mas sentimos que há menos produção, cerca de 20% ou mais, e o problema é que as uvas já estão a ficar muito secas, o que vai influenciar o rendimento”, explicou a responsável, sublinhando que, “até em termos de qualidade, há casos que sofreram com o míldio e os escaldões”.

Para o produtor do Vinho Mont’Alegre, Francisco Gonçalves, a quebra também é visível, “acima de tudo, no rendimento da uva”. “Devido ao excesso de calor, houve uma evolução muito rápida da maturação da uva, o que resultou num menor rendimento”, referiu o produtor, acrescentando que, na região dos verdes o impacto não foi tão elevado.

De salientar, ainda, que além das vinhas do Douro, este ano, Francisco Gonçalves também aguarda pelo resultado da aposta “na vinha mais alta de Portugal”, em Montalegre, na qual vai efetuar a sua primeira colheita. “Estamos a falar da primeira colheita de uma quantidade relativamente pequena que resultará no nosso primeiro ensaio de vinificação, no qual esperamos produzir umas garrafas de vinho de montanha. Devido às suas condições extremas e à altitude 1800 metros, temos tido alguma dificuldade para realmente estar em pleno, mas já conseguimos pô-la a produzir”, declarou.

Por sua vez, Olga Martins, da Lavradores de Feitoria, também lamenta o impacto do calor e nas doenças na vinha. Para a responsável, este foi “um ano difícil” dado que, ao nível do ciclo da vinha “não foi dos melhores”. “A vinha está a sofrer com este calor e mesmo as vinhas que parecem sãs e boas, quando vindimadas, a relação entre quilos de uvas e litros de vinho está pior do que o normal. As uvas estão secas e desidratadas, o que resulta num baixo rendimento que causará uma quebra”, explicou a enóloga, referindo que a desidratação das uvas poderá afetar a qualidade do vinho.

Esta situação, segundo Olga Martins, leva os produtores a tomar decisões para garantir o “controlo dos danos”: ou deixam as uvas na vinha e correm algum risco de que elas desidratem mais para que desenvolvam mais sabores, ou retiram-nas, correndo o risco de ainda não ter a maturação que pretendem. 

Apanha das uvas com máscara e distanciamento 

Além da quebra de produção, a vindima também foi feita de forma diferente, pois a Covid-19 impediu a proximidade a que os participantes estavam acostumados. A habitual animação talvez se tenha mantido, mas as rizadas são filtradas pelas máscaras. No geral, os produtores souberam lidar com esta nova realidade, estabelecendo normas tais com o distanciamento social e o uso de máscaras. “Durante as vindimas, temos o cuidado de manter o distanciamento social, na medida do possível, pois, algumas vezes, temos de chamá-los à atenção para usarem a máscara e para não ficarem todos juntos. Já dentro da adega, temos um protocolo que deve ser respeitado”, referiu Fernando Guerra.

Notícia completa na Edição nº727, amanhã nas bancas.

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