Vila Real: o 4 de Outubro de 1820

Por: Ribeiro Aires

 A História de Vila Real do século XIX e princípios do século XX  é reveladora da  sua afirmação política  no contexto regional e nacional.

A História local  não é só obra daqueles que nascem  num determinado território  mas é também  construída, ou formatada, como hoje se pode dizer, por aqueles que, vindo de fora, nele passaram a residir e a agir para o bem comum ou  colocando-se contra essa mesma comunidade, na defesa dos seus interesses pessoais ou com base nas suas convicções.  

Sem ocuparmos muito espaço com  a referência  a muitos nomes, citamos, à laia de exemplo,   e para o objectivo que, neste momento, nos norteia, alguns  que tiveram um papel preponderante  quer a nível local, quer a nível nacional:  a nobreza rural e militar dos Silveira  Pinto da Fonseca Teixeira,  dos   Magalhães e Lacerda, dos morgados de Mateus e condes  de Vila Real.

Estamos em pleno ano do bicentenário da Revolução Liberal de 1820, cujas comemorações a pandemia veio prejudicar, pelo menos este ano.

Falar da Revolução Liberal de 1820 é  dizer que a democracia de hoje, ainda que interrompida entre 1926 e 1974, começou  em 24 de Agosto deste mesmo ano. Ao modo de então, no programa inicial do Sinédrio e dos militares, que o apoiavam,  estava a realização de eleições para as Cortes da Nação,  alargadas ao  Brasil. O caminho até 1822  foi acidentado, mas a Constituição foi assinada e validada pelo rei, ainda que contrariado e com forte oposição pela rainha Carlota Joaquina. Mas não é ela que aqui nos traz, hoje.

O 4  é um número  com significado na História de Vila Real,  neste início do Vintismo. A  4 de Setembro as unidades militares  de Chaves e Bragança que pareciam estar  ao lado do Tenente General Francisco da Silveira, opositor ao movimento revolucionário, deram o dito por não dito, quando chegaram  a Vila Real,  declarando-se  ao lado da   Junta do Porto. Esta inesperada reviravolta  desagradou  a Francisco da Silveira.  Vendo-se só, atraiçoado,  pela família e pelos seus soldados, pediu asilo à Galiza, onde ficou a aguardar o insucesso do pronunciamento militar.  Em Vila Real, porém,  tocaram os sinos a rebate. O povo saiu à rua. Aproveitou o momento e este era a favor da Junta do Porto. Ao  povo  juntou-se  a Nobreza. Ouviram-se   vivas a D. João VI, à religião e, pois, à junta governativa. O povo  segue os  vencedores.  Hoje, uns, amanhã, outros.

Seguiu-se depois o 4 de Outubro  com outra manifestação geral de alegria, quando se soube que,  três dias antes,  Lisboa aderira ao movimento revolucionário do Porto, constituindo-se, então, a Junta Provisória do Governo Supremo do Reino»,  tendo na vice-presidência (até 16 de Novembro) o vila-realense  brigadeiro António da Silveira, irmão de Francisco da Silveira. Este facto foi considerado pelos vila-realenses como “memorável acontecimento”. Falta-nos um relato circunstanciado, jornalístico ou de um cronista «literário», fosse da Gazeta de Lisboa, fosse do Correio do Porto. Certamente que, em Vila Real,  no Rossio, no Largo do Chafariz ou na Praça Luís de Camões, enfim, no Tabulado  a satisfação, se verdadeira, deu origem a festejos exuberantes, como aqueles que ocorreram  no 5 de Outubro de 1910 e dias seguintes, quando se soube que o rei D. Manuel II não chegou a Vila Real porque houve a  implantação da República.

E já que estamos a falar no número 4, lembramos  que o dia mais importante para  esta cidade foi aquele em que D. Dinis, em Lisboa, em seu nome e da rainha Isabel, sua esposa,  fez  “carta de foro para todo o sempre… a mil povoadores,” da sua Villa Real.  Era  4 Janeiro de 1289.

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