Vila Real na Revolução Liberal de 1820

Por: Ribeiro Aires

Há duzentos anos, no dia 24 de Agosto, rebentou no Porto um movimento revolucionário que pôs de pé alguns dos princípios democráticos que nos norteiam hoje. A História não é fácil de a contar em poucas linhas, mas para que tenham coragem de ler esta crónica até ao fim, digo-vos, de imediato, que Vila Real desempenhou um papel importante, na senda do que já fizera durante as invasões francesas. De uma rajada, lembro que, no dia em que Junot chegou a Lisboa, a família real e a alta nobreza cortesã se fazia ao largo, deixando os franceses «a ver navios». Junot, Soult, Massena e os ingleses «gozaram» o país à «tripa forra». Se aqueles saíram de Portugal, à vez, com o rabinho entre as pernas, os segundos, por vontade do Príncipe Regente, a passar férias no Brasil, punham e dispunham, enquanto os portugueses, às vezes chorando, obedeciam com uma raiva que crescia dia a dia, conscientes de que a ruína económica  e financeira  do país se agravava cada vez mais. No Exército português  o descontentamento era evidente perante  a sobranceria do Marechal Beresford. Enfim, em Portugal, depois do Brasil ser elevado a reino, havia  o sentimento de sermos uma colónia brasileira e um protectorado inglês.  A burguesia portuense sentia-se que os seus interesses continuavam prejudicados.  Sentia que era necessário «regenerar» o país. As ideias liberais dos franceses  caíram em terreno  arável. A situação de dependência era insustentável. O rei não se decidia pelo regresso a casa, ainda que a Inglaterra ivesse aconselhado o seu regresso e lhe mandasse um navio para esse fim.

 E eis que Beresford cometeu dois erros. O primeiro foi a acusado de conspiração e, consequente, condenação a uma  morte horrível,   em 18 de Outubro de 1817, do general Gomes Freire de Andrade, que combatera, na Europa, nos exércitos napoleónicos. Neste seguimento, em Janeiro de 1818, nasceu o Sinédrio, organização maçónica, que se preparou para dar um outro rumo político ao país, o que aconteceu, aproveitando o segundo erro do Marechal inglês, quando este foi ao Brasil, para regressar com mais poderes. Antes de «pôr pé em ramo verde» num cais de Lisboa, a revolução eclodiu no Porto. Conhecidos os prolegómenos, vamos à outra parte que interessa. Ao Sinédrio, liderado por Fernandes Tomás, era necessária a força militar, para pôr em prática a revolução que tinham idealizado. Sem ela, como costumamos dizer, não iam a lado algum. Tentaram seduzir  o Tenente-general Francisco da Silveira, entregando-lhe a chefia do movimento, mas este era rígido de princípios e declinou o convite, passando, declaradamente,  à oposição. Viraram-se, então, para o irmão, brigadeiro António da Silveira Pinto da Fonseca Teixeira que aceitou. A ele se juntaram  um meio irmão e  três  primos, entre eles o marechal  Gaspar Teixeira de Magalhães e Lacerda, uns de Canelas outros de Vila Real. Mas outros comandantes de unidades militares aderiram. Foi então constituída uma Junta Provisória Depositária do Governo do Reino, tendo como Presidente o brigadeiro António  da Silveira Pinto da Fonseca Teixeira, nascido em Vila Real, no dia 5 de Maio de 1770.  Depois de vários avanços e recuos, Lisboa rendia-se  ao movimento e no dia 1 de Outubro  o Exército do Norte,  entrava em Lisboa, em ambiente de festa.

Vila Real recebeu  em sossego a notícia de que no dia 24 de Agosto tinha  rebentado uma revolta no Porto. O Tenente-general Francisco da Silveira saiu para Chaves a fim de organizar a resistência.  Impondo a sua vontade, congregou à sua volta várias unidades militares que fez marchar  para esta Vila Real, mas  que, aqui chegadas, se declararam contrários ao Tenente-general, facto que o levou a demitir-se do Exército e a refugiar-se na Galiza. No dia 4 de Setembro, Vila Real dava vivas  à Junta Governativa do Porto, ao rei e à religião.

Estes são os primeiros passos  desta revolução que concretizou um dos seus objectivos: a realização de eleições e a  institucionalização do Constitucionalismo.

Destes e outros assuntos darei conta aos interessados, em livro, quase no prelo,  a apresentar  brevemente, com o título: VILA REAL- REVOLUÇÃO LIBERAL DE 1820.

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