Um beijo por 25 mil dólares

Por: Ribeiro Aires

Dá cá um beijo, dá cá, dá cá.
Dá cá um beijo, não sejas má.
Não sejas má, não sejas louca.
Dá cá um beijo da tua boca.

Roberto Leal

A pandemia governa-nos há cerca de nove meses  e está preparada para reinar muito mais. É senhora de nós, ainda que nós  a queiramos contrariar. Procuramos afastar  a espada do medo, mas olhamos para ela com um sorriso esforçado, denunciador de que  nos sentimos prisioneiros dela. O manual da ditadura diz-nos que devemos estar afastados  um metro e meio, no mínimo. Quando não fazemos caso da regra, «metendo  a pata na poça»,  temos campainhas na mente a alertar para o perigo. Cumprimentamo-nos à cotovelada. Mal, já diz a OMS, porque não cumprimos o distanciamento físico e porque  espirramos para o cotovelo, como medida profilática – ética sanitária. E no interior do cotovelo se acomodará o maldito corona.

Beijar nem pensar. E beijar é o que muita gente mais quer. Andamos danados. Por isso, vão acontecendo rebeliões sob o signo “que se lixe”. Parece que voltamos ao tempo em que um beijo era uma raridade, socialmente muito comedido, pensado  e,  em certos casos, a significar  um abuso, – alguém, atrevido, levava uma chapada – um atentado a moral e aos bons costumes. Os beijos  eram para ser dados nas sombras do luar ou  só na intimidade, no recato do lar e com parcimónia.  Mas e no cinema?  Ah! Aquelas mulheres eram umas perdidas, umas desavergonhadas, diziam os arreigadamente púdicos. Se bem que não faltasse quem as quisesse imitar ou imitasse mesmo, no escondidinho da sala, esquecendo a  história que a fita projectava no ecrã.

É, por estas coisas, que trago aqui “um beijo por 25 mil dólares”,  O caso é  das primeiras décadas do  século XX e aconteceu na América. O relato chegou, em telegrama  a O Villarealense, não anotei a data. Conta-se, então, que  “um ilustre pândego, aliás, dotado de bom gosto, pespegou a um cantinho dos lábios duma formosíssima dama que passava nas ruas de New-York – mesmo em cima de um buçosinho, onde brincava um provocante sinal – um destes beijos à portuguesa, quente e demorado.

A dama não se descompôs, não esclarecendo o  telegrama  se ela chegou a tomar-lhe o gosto, o que para o caso não complica as leis que regulavam o beijo  americano, dado em publico e sem licença da diva.

É mesmo muito provável que ela se sensibilizasse e, no íntimo, recebesse bem a partida…

Mas um polícia que assistiu invejosamente à cena, ríspido como Javert, abordou o infractor e a infringida e lembrou-lhes que as posturas do ósculo extraordinário dão direito a uma remuneração que, quando exigida, chega bem para dois…

A deliciosa dama, infelizmente, precisava de dinheiro, como toda a gente que se preza…

E, após o julgamento, foi o reu condenado à multa de 25 mil dólares, que pagou com muito prazer, porque era arquimilionário.”

 Se repetiu a dose  ou não e se a senhora aproveitou ou não, não  houve notícia de reincidência, mas que fazia um «jeitaço» à dama, não duvidamos.

Agora os beijos são «à borliú», mas o #me too pode aproveitar para  sacar mais uns 25 mil dólares a um tolo que se arrogue, em acto laboral, forçar um ósculo repimpado.

E já que foi de beijo  o assunto desta  crónica,  fechamos, sem um custo tão levado, com um terceto de Florbela Espanca:

Amo-te tanto! E nunca te beijei…

E nesse beijo, Amor, que eu te não dei

Guardo os versos mais lindos que  te fiz!

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