Há hoje um amplo consenso na sociedade portuguesa relativamente ao tema da abolição das touradas. Quem tenha amigos de várias geografias e idades, mesmo considerando a probabilidade de qualquer um ter mais amigos a partilhar valores e opiniões do que a discordar, saberá que a proibição das touradas é uma questão de “quando” e não de “se”. Como explicar, então, o recente chumbo, na Assembleia da República, das propostas para abolir as touradas no nosso país?

Está em curso, como em tantas outras questões de costumes na nossa sociedade, uma corrida entre a coragem política e a passagem do tempo, para saber qual das vias será responsável pelo desfecho anunciado. Como em tantas outras questões, caberá à política dar a estocada final, mas ainda estamos a assistir a uma lide demorada, feita por outros intervenientes, que vão cansando o assunto, bandarilha após bandarilha. Neste caso, perdeu-se uma boa ocasião de… pegar o touro pelos cornos.

Como declaração de interesses, manifesto já a minha profunda convicção de que a manutenção deste espetáculo é hoje um anacronismo de difícil compreensão e que sou frontalmente contra a sua existência, mesmo tendo alguns amigos aficionados e entendendo o fascínio que o espetáculo possa causar em mentes moldadas de forma diferente da minha. Não sou, também, daqueles que entende estarem os direitos dos animais ao mesmo nível dos direitos das pessoas, percebendo haver por trás desta questão várias outras, algumas sensíveis, como a económica. Sou, confesso, menos convencido pelo argumento da tradição, que, por si só, jamais pode funcionar como desculpa para comportamentos que se considerem inaceitáveis sem essa capa.

Ou seja, para uma tradição ser passível de ser defendida e preservada, não chega estar enraizada na sociedade. É sobretudo fundamental que ela transmita valores e memórias que valham a pena ser preservados e incutidos nas novas gerações. Ora, já em 1836 Passos Manuel aboliu pela primeira vez as corridas de touros em Portugal com o argumento de serem “um divertimento bárbaro e impróprio de nações civilizadas”. De aí para cá, nesse grupo de países onde insistimos ser o nosso lugar, houve mudanças, de facto, mas todas no sentido de deslegitimar a catalogação da tortura e da morte de um animal como espetáculo. Já o argumento de que só assiste às touradas quem quer é contrário à própria definição de sociedade. Não querendo misturar este tema com nenhum outro, o certo é que nenhum de nós convive bem com qualquer tipo de crime ou atropelo à lei, seja ele cometido à nossa frente, na casa do vizinho ou longe da vista mas perto da consciência…

Percebo melhor o argumento de que largas comunidades localizadas vivem à custa deste negócio, mas tal como com a vertente cultural, não é apenas a rentabilidade ou atratividade de um negócio que determina o grau de protecionismo de que deve ser alvo. Se lançado o desafio, certamente que todos encontramos de imediato três ou quatro áreas de negócio muito rentáveis mas ilegais e, como tal, todos acharemos correto que sejam proibidas pela Lei.

Começa assim a ser difícil perceber, à luz da democracia representativa que rege o nosso parlamento, com que base votaram os deputados a manutenção da legalidade nacional das touradas, sem alterações. E aponto aqui, principalmente, os dois principais partidos, aqueles que mais cidadãos representam e que, como tal, mais representam a opinião geral e maioritária, o PS e o PSD. Repare-se, havia por certo vários avanços que podiam ter sido alcançados, fosse na questão dos subsídios de dinheiro público aos eventos, fosse na publicitação e transmissão televisiva dos espetáculos, que dessem, pelo menos, um sinal daquela que é a opinião generalizada neste tema. Ainda posso abrir uma exceção a deputados eleitos por círculos onde esta prática está mais implantada, mas não posso deixar de ver no facto dos outros deputados alinharem na votação disciplinada… uma tourada. Noto ainda com maior mágoa o facto de alguns deputados jovens destes partidos não terem dado um sinal claro de uma morte anunciada. Honra às exceções da política com coragem…

Andou bem melhor, neste particular, o poder local, na Póvoa do Varzim, que autonomamente aprovou o fim destes espetáculos, provando mais uma vez que em algumas matérias, a descentralização de decisões só traz vantagens…