Toleimas e aforismos

Por: João Madureira

Como constatou Nuno Brederode dos Santos: no poder não se levita. Ter mau feitio é muito diferente de ter maus propósitos. Passamos da descodificação genética à codificação genérica. Entre nós e a realidade estão os nossos sentimentos. As revoluções são ilusões que acabam mal.

Os cavalos também se abatem, mas são incapazes de pisar um homem morto. A identificação e os estereótipos dos vilões continuam a ser os mesmos: chineses e alemães. Connosco vai ser diferente… connosco vai ser diferente… connosco vai ser diferente… As lengalengas são como máscaras. A oeste nada de novo.

A verdade é que com este novo tipo de direita e esquerda, muito de nós se sentem cada vez mais a leste da política. Os cisnes são muito narcisistas, gostam de olhar para o seu reflexo nas águas calmas dos lagos, enquanto espiam de lado o cisne negro que, solidário, desliza no espelho de água.

As almas mais sensíveis também costumam ser as mais maçadoras. Os beijos trocados por necessidade são sempre amargos. Há pessoas que se drogam com dinheiro, outras fazem-no com a piedade, mas as mais crentes inalam o aborrecimento como se fosse incenso.

É um problema sério quando o idealismo se transforma num vício. Depois só resta a desilusão. O conservadorismo é um preconceito prático para as elites e um aforismo estúpido para os outros que dizem professá-lo.

Mas uma coisa sabemos: quanto mais Hyde prevarica, mais a consciência de Jekyll se purifica. O que não sabemos é se tudo vai dar ao mesmo. Ou, se calhar, sabemos, mas pouco nos importa.

Todos nos purificamos, e conformamos, com as normas da conveniência. Os recalcamentos surgem dos desejos proibidos. Sabemos que a consciência da complementaridade não nos pode impedir a rutura. E também não nos pode abjurar a reconciliação.

Reivindicar princípios não é o mesmo que possuí-los.  As pessoas que se preocupam muito com a ordem externa é porque internamente estão em desordem. Nós temos de distinguir os políticos das pop-star, apesar da plebe democrática gostar muito de ambos. A sua exigência é o melodrama.

A política está farta de produtos partidários. Estou em crer que, fora disso, muitos desses militantes não valeria coisíssima nenhuma. E ainda valem menos os pequenos conspiradores e as pequenas seitas onde se movimentam.

As escolas partidárias ensinam aquilo que sabem: a intriga, o boato, o segredo e o truque. Pensar pela própria cabeça é proibido. Só causa sarilhos. Por muito que nos custe, o pensamento cínico tem o poder de antecipar os factos. Até porque o povo são sempre os outros. Quanto mais as coisas parecem mudar, mais se assemelham ao que sempre foram.

Por brilhar, o sol morre mais um pouco todos os dias. Bem assim como as pop-stars da política, que atualmente incorporam, por direito próprio, o triplo papel de sacerdotes, feiticeiros e curandeiros da tribo. Tal como os atores, também elas fingem ser outra pessoa. Ganhar a vida custa a todos.

Todos entendemos que não são as palavras que nos levam ao socialismo, a ser assim já estaríamos lá há algumas décadas. Fartamo-nos é de caminhar nessa direção, apoiados na Constituição, mas parece que esse é um caminho infinito, como o poema de um nosso amigo.

Afinal esse caminho não passa de um pseudónimo enganoso e, até, abusivo. Não é por andar mais ou menos depressa que se chega ao fim de um caminho que não tem fim. Afinal o caminho para o socialismo, e o próprio socialismo, fazem parte do mesmo paradoxo inatingível.

Como diz um nosso amigo, quem não quer ser socialista não lhe deve vestir a pele. Até porque o rebanho é cada vez maior. E em tempo de gado gordo até os donos se entusiasmam com o balir satisfeito das suas ovelhas. Mas o pobre também costuma desconfiar quando a esmola é grande. Grande para o pobre, não para o esmolador.

A terminar deixo-vos uma adivinha sobre quem terá sido o digníssimo chefe de estado português que escreveu este naco de prosa que, passados alguns anos, ainda é bem capaz de nos embasbacar a todos. Pista: estava a tentar dizer algo de substantivo sobre os jogos olímpicos: “Se a democracia grega radica no ‘logos’, na razão política e no debate público entre os cidadãos e os seus representantes, já a matriz da civilização romana repousa na regra ou ‘jus’.”

Por isso é que o socialismo continua no meio da ponte, como o louco.

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