Será que sofro disto?

Um belo dia em 1817, o senhor Henri-Marie Beyle, escritor francês, mais conhecido por Stendhal, visitou Florença, e quando entrou na basílica de Santa Cruz – a maior igreja franciscana do mundo, fundada pelo próprio S. Francisco e onde foram enterrados Miguel Ângelo, Rossíni, Maquiavel, Galileu e mais nove personalidades de alto gabarito, sábios e artistas – na sua cabeça gerou-se um turbilhão de emoções fortes perante este sÍtio carismático. A beleza sublime da arquitectura, as personalidades aí enterradas, acrescidas da acção de Brunelleschi e Giotto, e ainda toda a arquitectura da cidade de Florênça, deram uma aceleração à sua emotividade e fanicou. Os frescos de Giotto, a representação celestial… estava tudo ali!

A mensagem artística que sensibilizou e emocionou Stendhal, em demasia, traduziu-se em taquicardia, tensão emocional, palpitações, tremores, calores, suores e exaustão. Não sei se teve tonturas, vertigem e desmaio, mas que ficou em êxtase total, ficou, e confessou mais tarde.

Cheguei a esse ponto de emoção que cumpre com as sensações celestiais que brindam as Belas Artes e os sentimentos apaixonados. Ao sair de Santa Cruz, tinha um batimento irregular, a minha vida estava acabando, caminhava com medo de cair.”

Passados mais de 150 anos, os psiquiatras denominaram este distúrbio psicossomático de Sindrome de Stendhal, ou de Florença ou de hiperculturemia.

Ser colocado presencialmente perante os gigantes da estética, altera a nossa perspectiva de vida, com ligação directa ao nosso interior e ao nosso coração, formando uma verdadeira overdose de beleza, que nem todos resistem ou administram bem.

Será que sofro disto?

Esta descompensação mental gera-se após várias horas e vários dias, de visita a locais saturados de obras de arte, em que o visitante quer absorver tudo, visto que são locais que por vezes se visitam apenas uma vez na vida. A viagem pela arte pode ser considerada a jornada da alma. O ser humano tem capacidade de concentração limitada. Após umas horas, o cérebro já não consegue fazer qualquer registo profundo, porque a quantidade de informação e de emoções associadas excede a sua capacidade de absorção e de entendimento. A transposição para o enredo emocional da sua própria identidade, alcança o limite. A partir daí a vivência estética passa a ser tóxica.

A extrema sensibilidade à arte pode virar síndrome e dizem que, não é assim tão rara e afecta mais quem viaja sozinho. Esta desconstrução emocional, não partilhada, potencia a sintomatologia. 

Será que sofro disto?

Viajar e contactar com obras de arte são aquilo que procuro regularmente. Felizmente, tenho uma acção e uma memória, selectivas. Só vejo o que verdadeiramente me interessa, mas como sofro da ansiedade de nunca mais voltar, recorro à máquina fotográfica, para registar aquilo que a memória já não consegue. Confesso que senti uma grande descompensação perante a possibilidade de observar a Mona Lisa e a Pietá, pela primeira vez. A reduzida escala destas obras, colocou de imediato a minha emoção em ordem, porém, quando vi Guernica de Picasso, colapsei. Não me deu o piripaque, mas as lágrimas deslizaram.

Imagem: http://www.moriareviews.com/horror/stendhal-syndrome-1996.htm 

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