Ser refugiado


Por: Anabela Quelhas

Sensibiliza-me imenso a condição de se ser refugiado, não só pela minha formação humanista e de entendimento histórico dos movimentos migratórios voluntários e involuntários mas também porque vivi um pouco essa situação, pelo que, de imediato, converte-me em solidária.

Impressiona-me ver, através da comunicação social, as tentativas de fuga dos países de origem, nem sempre bem-sucedidas, em direção aos países vizinhos, atravessando terras e mar, em condições perigosas e desumanas. 

Fogem da guerra, do terror, da miséria, da perseguição política ou religiosa, tentando resguardar-se nos países em que respeitam os direitos humanos, arriscando tudo, até a própria vida. Na fuga enfrentam a fome, maus tratos, violações, roubo, permanência longa em sítios insalubres, descriminação, xenofobia. Arriscam a vida.

 Nos países de acolhimento gera-se por vezes a ideia de que os refugiados vêm tirar os empregos dos residentes, ou diminuir o apoio aos desempregados, contrária ao que dizem alguns estudos, que evidenciam benefícios económicos para estes países. Na minha perspectiva, na solidariedade não pode vencer a competitividade, e aqui trata-se de um fenómeno denominado, sobrevivência. 

A ligação entre a cultura dos que acolhem e dos que pretendem acolhimento, é com frequência factor de grandes constrangimentos. Os países que acolhem devem estar em alerta sobre o choque de culturas que pode tornar-se num problema gigantesco e incontrolável. A prática civilizada e pacífica da aculturação tem vertentes perigosas, que devemos considerar, porque nos colocam, nós europeus, entre a espada e a parede. De um lado, o respeito pelos direitos humanos e por outras culturas, do outro, práticas tradicionais da cultura de alguns refugiados que são incompatíveis com o respeito pelo outro. Nós europeus não podemos ser permeáveis à violência contra as mulheres (casamentos precoces, mutilação genital, desigualdade de direitos, assédio sexual, espancamento), incesto, enterrar crianças recém-nascidas vivas com deficiência e homofobia.

Há valores universais que não podemos eliminar por muito que respeitemos outras culturas. O multiculturalismo tem limites, porque há valores universais e outros que não o são, levando-nos a considerar o relativismo cultural, e toda a discussão filosófica existente sobre o tema. O questionamento sobre o bem e o mal, as razões e as suas motivações, não terão fim e cada um terá que fazer a sua escolha. A minha escolha é esta, mesmo que arrisque que me considerem intolerante: Quem acolhe, dita as regras. É uma “intolerância” bem pesada por diversos valores e porque os que acolhem também têm cultura e deve ser respeitada. 

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