Quaresma, caminho de deserto, tempo de conversão e esperança: Mensagem do Bispo de Vila Real

Quaresma, caminho de deserto, tempo de conversão e esperança

A Quaresma deste ano constituirá para todos nós, cristãos da diocese de Vila Real, uma experiência diferente do habitual. A gravidade da situação pandémica obrigou à permanência em casa de  grande parte da população e à suspensão das ações litúrgicas públicas. Neste contexto convido a todos a fazerem desta Quaresma um tempo de deserto e caminhada interior, um tempo de conversão e esperança.

O confinamento caseiro durante largos dias aproxima-nos da experiência espiritual de deserto. Somos capazes de imaginar com mais facilidade a solidão, o silêncio e a vulnerabilidade que sentiram aqueles que estiveram no deserto. Assim aconteceu com Jesus que esteve quarenta dias no deserto e o com o Povo de Deus que por lá andou durante quarenta anos. Para Jesus foi um tempo duro, de provação e de luta contra o mal. Para os hebreus, a longa caminhada no deserto foi repleta de dificuldades, ilusões e desânimos e impaciências. Foi, porém, um período essencial para cimentar a sua identidade e  preparar uma nova fase da sua história. Tanto Jesus como o povo saíram do deserto mais fortes interiormente para assumirem a missão. Da mesma forma esta Quaresma pode ser um tempo de deserto interior em que nos confrontamos com a verdade da nossa vida, as tentações que nos iludem, o pecado que nos envenena a vida. Não nos resignemos em fazer deste tempo um mero interregno ou suspensão da “vida normal”, mas um tempo marcante para o nosso futuro. No meio das trevas que nos envolvem preparemo-nos melhor para celebrar a luz pascal; sedentos de liberdade, de vida, de relação com os outros, dispunhamo-nos a saborear a água viva e a liberdade plena que jorram da Páscoa de Jesus Cristo.

A quaresma, tempo forte da liturgia cristã, pode ser, este ano, um tempo forte de caminhada interior.  No deserto, Jesus foi conduzido pelo Espírito Santo e os hebreus foram iluminados pela Palavra de Deus que Moisés lhes comunicava. Nestes quarenta dias não estamos sozinhos, caminhamos com Jesus Cristo e com toda a Igreja. Essa caminhada interior será mais rica e proveitosa se cultivarmos espaços de silêncio e de oração, se frequentarmos mais assiduamente a Sagrada Escritura. Serão os alimentos para o nosso caminho e ajudas para reencontrar e fortalecer as raízes da nossa fé.

O caminho quaresmal que nos conduz à celebração da Páscoa tem a marca de esperança. A salvação que nos vem da cruz redentora é a grande razão da nossa esperança. Uma esperança que não é resposta fácil aos dramas humanos, mas é dom e promessa daquele que é o Senhor da história. Uma esperança de que tanto carecemos para nos iluminar nestes dias de sombras e incertezas. Mas uma esperança que nos compromete porque solicita uma profunda conversão de vida. «Convertei-vos a Mim de todo o coração» (Joel 2,12) continua a ser o convite de Deus a cada um. Esta mudança de vida acontece nos corações que se abrem ao amor infinito e misericordioso do Pai e encontra a sua confirmação no assumir de estilos de vida mais fraternos e solidários, mais sóbrios e respeitadores do ambiente.

As práticas tradicionais da Quaresma podem adquirir no presente contexto  um sentido mais amplo e uma intensidade mais profunda.  Este é o espírito da proposta do Papa Francisco na sua mensagem para a Quaresma: «O jejum, a oração e a esmola – tal como são apresentados por Jesus na sua pregação (cf. Mt 6, 1-18) – são as condições para a nossa conversão e sua expressão. O caminho da pobreza e da privação (o jejum), a atenção e os gestos de amor pelo homem ferido (a esmola) e o diálogo filial com o Pai (a oração) permitem-nos encarnar uma fé sincera, uma esperança viva e uma caridade operosa».

Neste mesmo sentido, a renúncia quaresmal que os cristãos são convidados a fazer, é também uma prática cheia de significado. Atendendo a que tem aumentado de forma preocupante o número de pessoas e famílias a precisar de apoio para a alimentação e outros bens de primeira necessidade, entendi destinar à Caritas Diocesana o produto da renúncia quaresmal. Esta instituição da Igreja tem vindo a dar uma resposta pronta e eficaz às situações de carência material, mas para fazer face ao crescente aumento de casos de emergência precisa de ver reforçada a solidariedade de todos os diocesanos.

Que Maria, Nossa Senhora e Padroeira, interceda por nós. Jesus, Senhor do Calvário, caminhe connosco e nos guie nesta quaresma até à luz pascal. Que Deus a todos encha das suas bênçãos e conceda saúde, paz e bem.

Vila Real, 15 de fevereiro de 2021

António Augusto de Oliveira Azevedo

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