Quarentena: uma vida entre quatro paredes

No passado mês de março foi declarado o Estado de Emergência e, consequentemente, os portugueses foram apelados a ficar em casa e, se possível, a fazer teletrabalho. Uma mudança que pediu alguma adaptação, mas que, para além disso, também funcionou como um “abre olhos” sobre uma temática que temos tendência a ignorar: viver em sociedade.

Antes, ao longo dos dias, acordávamos de manhã, preparávamo-nos, tomávamos o pequeno almoço e íamos para o trabalho. Durante o dia, fazíamos as nossas tarefas, quer fossem muitas ou poucas, e, ao final, voltávamos para casa. Ao chegar, enfiávamos os nossos chinelos, fazíamos um pequeno jantar, falávamos sobre um pouco de como nos correu o dia e, por fim, íamos dormir para, no dia seguinte, repetir esta rotina que, ao longo das semanas, nos ia saturando.

Durante o confinamento, essa rotina foi interrompida e, alguns de nós, felizes, até foram para a praia. Finalmente, saímos daquela rotina que já “enjoava”. Pensando que esta nova doença não ia abalar o nosso país, agradou-nos a ideia de ficar “umas semaninhas” de férias em casa.

Após algumas semanas, a rotina, que podia enjoar alguns, começou a provocar um longo sentimento de saudade. Apesar do trabalho, os dias pareciam todos iguais. Mesmo se não perdemos totalmente a noção do tempo porque tínhamos “deadlines”, a incerteza de quando tudo vai voltar ao normal deixou-nos um pouco desorientados. E, para complicar as coisas, tivemos de reaprender a conviver com pessoas. Pois é, maior parte dos portugueses não ficou sozinho de quarentena (foi o meu caso), e conviver com outras pessoas tem revelou-se mais difícil do que imaginávamos.

Antes da quarentena, passávamos algumas horas em casa, resumidas ao jantar e ao pequeno almoço. Depois, ficámos 24h/24 com as mesmas pessoas e as tensões foram mais palpáveis do que o bem-estar, porque é difícil tolerar gente que não vê o dia a dia como nós. O teletrabalho torna-se mais difícil quando temos crianças ou idosos que nos entram pelo escritório improvisado adentro para lhe acendermos a televisão. A própria paciência torna-se escassa quando, após as habituais oito horas de trabalho, sentados à frente de um ecrã, nos queixamos de cansaço e nos dizem: “estás cansado de quê? Estiveste o dia todo sentada”, porque, para alguns, escrever, telefonar e investigar, sobre isto e aquilo, “não é trabalho”. Lá vem aquela tensão que nos leva a respirar fundo, porque estamos de quarentena e temos de “gramar a pastilha”. Até nas tarefas do dia a dia sentimos uma “comichão”, porque tal pessoa não limpa o espelho da casa de banho como deve ser, ou porque outro indivíduo pinga o chão cinco minutos após ter sido limpo. Parece que nos esquecemos de como viver em comunidade. E só Deus sabe como foi difícil reaprender a partilhar um espaço restrito. Acabamos sempre por nos sentir encurralados, porque viver com várias pessoas implica o respeito do espaço dos outros, ou seja, o meu espaço acaba onde começa o do outro.

E pronto, acaba o dia, jantamos juntos, e vamos dormir. Mas, até nesse momento, temos pensamentos que nos vêm roubar o sono. Pensamos na situação atual, nos nossos familiares, no que iremos fazer se algum de nós fica doente, se aqueles que têm de sair de casa para ir trabalhar vão ficar bem, se isto vai passar, se vamos estar cá para ver, se ainda vamos ter emprego, se não, como vamos fazer, como é que vai ser a vida depois desta pandemia, quando e como vamos sair de casa, quais as primeiras coisas que vamos fazer… a páginas tantas, é de madrugada e sono não pega.

O mais frustrante de toda esta situação, não foi aprender a conviver, não foi adaptar-se e também não foi desesperar, foi aceitar o facto de que a melhor coisa que podíamos fazer era ficar em casa.

Cláudia Richard

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