Portugal: um Galeão ainda com velas

Por: José João Pinto Ventura*

Nasci e criei-me para lá do Marão, Vila Real, uma das regiões mais afetadas pelo empobrecimento e desertificação. Português e, portanto, desde muito novo, habituado a escutar diariamente que estamos em crise. Tanto eu como os meus conterrâneos fomos habituados a aprender sobre tudo e todos, a ser mais e melhor, a utilizar a palavra resiliência no nosso quotidiano, mas nem sempre é suficiente. Há 3 anos saí de Portugal, rumo a Nova Iorque. Por casualidades da vida, terminei por me estabelecer na solarenga, cosmopolita e ativa cidade de Miami, que me faz imaginar um Algarve que ainda não é.

No decorrer deste período, desenvolvi um olhar substancialmente mais atento sobre todos os eventos que vão ocorrendo num país que agora vejo de longe e, por conseguinte, consciencializei-me de outras casualidades realmente interessantes:

Leio sobre um Portugal ainda governado por uma maioria parlamentar da designada Esquerda! A tão talentosa e culta classe artística não se mostra aberta a outros ideais mais progressistas ou até mesmo capitalistas, que poderiam dar acesso às plataformas internacionais de divulgação das mais variadas artes, tais como a Netflix, e que serviriam esta classe, tendencialmente revolucionária e responsável pela evolução e afirmação cultural, de modo a poder exercer o seu nobre ofício. E acresce que são dignos de serem reconhecidos universalmente, pois a qualidade não é escassa, mas, provavelmente, é mais cómodo estar na moda, ser coordenado por ordens que em nada defendem os interesses nem dos prodígios nem dos já renomeados! Estar num rebanho e pensar igual, ao invés de pertencer a uma matilha, de ter caráter e valorizar o individuo como Humano, para que se possa desenvolver na sua total plenitude. Porém, uns optam por enveredar por caminhos da extrema-direita populista, outros pensam que ainda está na moda ser de Esquerda.

Ouvem-se depoimentos desconcertantes por parte de alguns comentadores televisivos (sejam louvados os senhores José Gomes Ferreira, Paulo Morais e Henrique Medina Carreira, entre outros), queixas tendencialmente conservadoras proferidas por taxistas, jornalistas de bancada em vários canais de YouTube, mas tudo esmorece e os saques continuam.

Aos millenials ninguém lhes dá a palavra, não podem intervir na esfera política nem definir o seu próprio rumo se não forem “jotinhas” à espera dos famosos “tachos”! Em contrapartida, são alvo de críticas constantes, ou é a suposta preguiça, ou a falta de motivação, ou a falta de comparência nas urnas, como se esta fosse a geração responsável pelos últimos 40 anos de governação. Uma geração altamente qualificada, cuja maioria já viajou, já viu e observou mais desta ameaçada Terra que as quatro gerações anteriores juntas! Não se enganem! Não são desmotivados, são descrentes! Descrentes na máquina corrupta partidária, da suposta democracia em que o povo elege os seus deputados, dizem, deputados esses que representam, desproporcionadamente, as várias regiões, em especial as designadas do interior, que não defendem as classes trabalhadoras, mas que em muito se esforçam para garantir que os seus negócios presentes e futuros estabeleçam uma cordial e duradoura parceria rentável com o “Santo” Estado da misericórdia português.

Tal como Salazar tanto desejava, aqui está o “povinho” amordaçado, de eternos brandos costumes, alienado, adormecido, com uma coragem suspensa, que deu espaço a que se instalasse um medo generalizado de perder os míseros ordenados que para nada são suficientes, mas que, para quem não quer mudar, são aceitáveis para o dia a dia de casa ao trabalho, trabalho ao café, por vezes, e de volta a casa. Enfim, um modo de subsistência ao nível do Paleolítico!

Como podemos aprender com William Arthur Ward – “O pessimista queixa-se do vento, o otimista espera que mude, o realista ajusta as velas.” – e assim, os atuais e futuros emigrantes seguirão ajustando as velas se nada bem feito for feito.

No coração do emigrante, o sangue é bombardeado de modo particular, como se uma pequena parte da alma de Viriato tivesse reencarnado em cada um de nós. Guerreiros, destemidos e muito trabalhadores, dizem por aí. Aguça-se o que de mais português possuímos: o orgulho, a saudade, a comparação inevitável com os países em que cada um se encontra, sem entendermos que a única competição real é com o ser humano que fomos ontem. Por um lado, damos razão aos “velhos do Restelo” que nos avisam uma semana antes de partirmos – “Quando saíres vais-te aperceber do que há de bom aqui…”, por outro, também nos deparamos com uma triste realidade, ou seja, para vivermos juntos dos nossos, não podemos desejar respirar no século XXI!

No dia do meu aniversário, dia 5 de setembro, que pela terceira vez consecutiva celebro em terras à esquerda do Atlântico, outro “assalto” à democracia portuguesa é confirmado: a realização da festa do Avante. Num país devastado por uma impiedosa pandemia, onde não há nem Fado, nem Futebol nem Fátima, os filhos de Estaline, Marx e Fidel alcançaram o aval Estatal para a realização de um evento político, com milhares de militantes, que em nada abona à imagem externa de Portugal e que, certamente, resultará numa nova quebra no turismo, como se este fosse exagerado, conduzindo a que esta brilhante decisão ecoasse até pela imprensa Norte-Americana!

A reflexão já vai longa! A meu ver, os novos fundos europeus serão a nossa última oportunidade de “ajustar as velas”. Olhemos para a História e aprendamos com ela! Portugal só foi deveras avante quando o Príncipe Perfeito retirou poderes à imoral e retrógrada nobreza e dominou os mares. Atualmente, esperemos, para nosso bem, que no decorrer do ano de 2021 seja aprovada a Extensão da Plataforma Continental! Portugal só foi deveras avante quando um certo Marquês, que não aceitou o espírito fatalista e despesista instalado, equilibrou as contas públicas.

Concluo…ou não. Recentemente, apercebi-me de uma bela ironia latente na nossa bandeira republicana, mais do que isso, uma analogia clara com o panorama parlamentar: à Esquerda, uma representação débil e apenas simbólica de esperança, mas esperar, como constatamos anteriormente, está reservado somente aos otimistas; à Direita, eventualmente, termina em sangue, suor e lágrimas, derramados pela brutalidade de regimes autoritários e de um conservadorismo sem fundamento nem precedentes. Resta-nos ser realistas, encontrar um Centro, utilizar as ferramentas existentes, as matérias-primas, o engenho e a moral de modo a construir uma nova Esfera Armilar que nos indique o caminho da Produtividade, do Progresso e da Prosperidade, pois só a inexistência de intelecto é que nos encaminhou e pode encaminhar a ser Pequenos, Pobres e Periféricos.

A força existe, ainda vale a pena!

*Arquiteto em Miami. Antigo aluno Esc Sec. Camilo Castelo Branco

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