Porque é Dia de São João

Por: Ribeiro Aires

Porque hoje é dia de S. João e S. João não há, falemos  do S. João que nesta terra – qualquer terra – havia.  Nesses tempos, sem data cronológica que,  para o caso a cronologia não interessa, António amava  Maria e Pedro nunca se deitava cedo, pois  a noite era  sempre de ramboia.

E, á memória,  saltam os versos comuns das cantigas que o povo entoava

“ Fui ao S. João a Braga,

 de Braga fui ao Bonfim

 e vi tudo embandeirado

 com bandeiras de cetim.”

 Ou

“Ó meu rico S. João,

 a tua capela cheira,

cheira a  cravo, cheira a rosa,

 cheira à flor de laranjeira”.

A festa de S. João, em todos os povos europeus, diz-se estar ligada ao solstício  de Verão.  Este período sempre foi considerado como de celebração e de exaltação pela fertilidade e produtividade das terras. A  fogueira foi, durante séculos,  o símbolo maior  das comemorações populares na Europa. O cristianismo  apoderou-se do simbolismo pagão, alterando-lhe o significado, passando a simbolizar o fogo celeste. Assim, afirma-se que o antigo costume de acender fogueiras foi ligado ao acordo feito pelas primas Maria e Isabel, ambas grávidas. Para avisar Maria sobre o nascimento de João Batista, Isabel devia acender uma fogueira sobre um monte.

Saltar a fogueira era a festa nocturna na noite de S. João, por todo o lado.

Ao saltar a fogueira

Na noite de S. João

Não sei de que maneira

Chamusquei o coração.

Ou ela não usa calça

Ou as tem na lavadeira

Dei por isso à noite

Quando saltava a fogueira (1929).

Este acto  de  saltar a fogueira era purificador contra a sarna, o sarampo, as bexigas, o bruxedo, as dores de cabeça.

Vila Real, como outras localidades, terá festejado o S. João há muitos séculos,  ainda que  haja textos conhecidos anteriores ao século XIX. Até meados do século XX, ruas e bairros faziam a sua festa, concorrendo uns com os outros, pela melhor fogueira. Desde os anos sessenta, a tradição esmoreceu, caindo mesmo em desuso. As fogueiras foram proibidas e o S. João ficou sem o seu principal divertimento, a sua principal razão. Mas reinventado, voltou em força no século XXI,  com  uma outra cara, um outro charme. E é deste que, hoje, temos saudade. Ontem teria sido a noite da grande confraternização, nas ruas da cidade,  a comunhão à mesa com sardinha, pão e vinho.

E se este S. João assim não é

Dançai, moças, esta noite,

Se de vosso gosto é;

Cheiram bem todas as ervas

Onde  vós pondes o pé (O Villarealense,1894)

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