Política e Justiça

O Partido Socialista arrumou a casa na semana passada, definindo em 48 horas a posição com que vai assumir a relação com José Sócrates no ciclo eleitoral que se avizinha. Não terá sido uma decisão fácil, uma vez que o antigo primeiro-ministro mantém um séquito relativamente intacto de apoiantes indefetíveis, capazes de causar mossa eleitoral, não apenas dentro do partido mas, sobretudo, fora dele. Mas, na balança do deve e do haver político onde se jogam as decisões, quem decide chegou à conclusão de que os prós ultrapassaram finalmente os contras. A conclusão foi imediata e executada com eficácia e eficiência. Alguns golpes certeiros e José Sócrates foi forçado a anunciar o corte definitivo com o PS, um caminho sem retorno e que era, na realidade, o único possível. Não que os golpes tenham sido mais do que os estritamente necessários. Pelo contrário, foram a medida exata que obrigou ao desfecho desejado, mas mantendo ainda a possibilidade final de demonstrar surpresa por esse final da trama.

Se apresento a minha visão do episódio de forma, admito, algo cínica, é porque acredito que estamos perante um caso típico de política nua e crua. Não foram tidas em conta amizades pessoais, históricos comuns de lealdades passadas ou considerandos sobre o primado da presunção da inocência num Estado de Direito. Não, neste caso, o que presidiu à tomada de posição do PS foi simplesmente o instinto de sobrevivência coletivo.

Na verdade, José Sócrates era “o elefante no meio da sala” com que o Partido Socialista iria ter de lidar, mais cedo ou mais tarde. Em 2015, o contágio da sua prisão preventiva nas eleições foi diminuto, permitindo mesmo algumas posições públicas de responsáveis em sua defesa. Quatro anos volvidos, a manutenção das suspeitas sobre a sua conduta durante o tempo em que foi primeiro-ministro jogaria sempre contra quem quisesse manter a sua defesa, acantonada na inversão do ónus da prova. Os conceitos mais fundamentais e elementares da Justiça podem resistir em tribunal, mas jamais podem ser aplicados às regras próprias da Política, onde quatro anos de suspeitas causam mais danos do que uma acusação provada.

Este instinto de sobrevivência pode parecer um conceito perigoso, mas há que ter em conta que ele aparece, com outras roupagens, noutros momentos da política e noutras situações da vida. É o género de instinto que causa a mesma histeria coletiva quando o que está em causa é o apoio acrítico a um líder, momento em que à densidade ideológica e à consistência de valores se sobrepõem o carisma oco ou a telegenia fabricada. E é o mesmo género de instinto que leva cidadãos a defender uma posição e o seu exato contrário, conforme interessa mais ou menos aos seus interesses particulares.

É por isso que este artigo não é sobre a culpa ou inocência de José Sócrates. Esse será o momento do “à Justiça o que é da Justiça”. Tenho sobre José Sócrates, genericamente, a mesma opinião que tinha quando apoiei Manuel Alegre nas eleições internas do Partido Socialista, em 2004, ou quando votei na maioria socialista, em 2005, ou quando acompanhei o fim do seu governo, em 2011. Tenho, além disso, poucas dúvidas que as pessoas que com ele privaram de perto tenham, também elas, mudado muito de opinião acerca dele. Mas tenho a certeza, também, que a marca que deixou enquanto governante, em vários setores, perdurará por muitos anos no espírito dos militantes socialistas e de incontáveis concidadãos das mais variadas ideologias.

É também por estas razões que se torna cada vez mais interessante a luta surda no interior do Partido Socialista, e que durará até ao pós-legislativas de 2019, entre uma ala esquerda, geracionalmente mais nova e politicamente menos identificada com o “socratismo”, e uma fação de bloco central, mais conotada com os anos de governação pré-Troika e que exorcizou com este episódio o seu principal fantasma.

Esse será o momento do “à Política o que é da Política”.

 

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