Ao contrário do que muita gente esperava, a “corrente de afeto” que rodeava José Sócrates morreu por asfixia. António Costa, o sorridente, cortou de forma oficial com o seu antigo camarada de partido. Até os obedientes cães de fila de Sócrates começaram a descobrir-lhe falhas de caráter.

As eminências pardas do PS, vendo o seu ex-camarada a afogar-se no rio das águas escandalosas, escolheram o caminho das pedras, proclamando, em seu favor, a velha ética republicana, que é chapéu de três bicos e serve em qualquer cabeça socialista.

O que todos nós sabemos, há já muito tempo, é que há demasiadas fortunas sem explicação em todos os partidos que estiveram no poder e a dita eficácia da justiça foi sempre controlada a partir do poder legislativo, com a cumplicidade de algumas figuras.

Mas Sócrates é mesmo o primeiro caso conhecido de delinquência organizada ao mais alto nível. Pensou ele que também escaparia ileso à justiça, pois já tinha visto muitos dos que o antecederam no poder a conseguir escapar incólumes às acusações de corrupção e enriquecimento ilícito. Pensava que era possível enganar tudo e todos. Tinha a lição bem estudada, acreditando na máxima de que a política é para servir os amigos, prejudicar os inimigos e sentar os indiferentes.

É caso para dizer que na política portuguesa já tivemos de tudo: rainhas loucas, presidentes-reis, presidentes-múmia e primeiros-ministros corruptos.

Por isso, o PS de António Costa resolveu enterrar o cadáver político de José Sócrates. Mas o caso do “animal feroz” vai ser um fantasma político que andará sempre a pairar em volta do PS.

Carlos César, no papel de exorcista e para se livrar das trapalhadas das viagens aos Açores, carregou nas tintas da argumentação, dizendo que o desejo do seu partido é o de “que todos os que prevaricarem sejam descobertos e, a comprovar, que sejam punidos com severidade”.

Mas os indícios socráticos já vinham de longe e só não viu quem não quis ver: licenciatura a martelo, despachada ao domingo; vida de milionário sustentada com empréstimos de amigos; ligações perigosas e alegadamente promíscuas com banqueiros e outros tubarões da mesma índole; tentativas desesperadas de controlo da comunicação social.

Por isso custa a perceber que António Costa, que foi segundo no primeiro governo de José Sócrates, bem como outros ministros, e até Carlos César, então presidente do governo açoriano, nada pensassem, nada pressentissem, nada lessem e nada ouvissem sobre José Sócrates.

Essa esplendorosa incapacidade de perceção transformou-se agora na descoberta da pólvora.

Por isso custa a engolir, outra vez, o estafado argumento (Manuel Alegre já o empregou um milhar de vezes) da ética republicana, utilizando-o como mera saudação farisaica, que ajuda a modelar o que não passa de taticismo serôdio e oportunista, esquecendo-se que para os homens de bem, aqueles que nada devem e nada temem, é tão essencial a legalidade de direito como a legitimidade moral.

Foi despois da polémica em torno de Manuel Pinho que surgiram as primeiras críticas públicas ao ex-primeiro-ministro, por parte de socialistas proeminentes, que ditaram a saída de José Sócrates do PS.

Politicamente tudo se precipitou.

Os socialistas, através do seu presidente, Carlos César, proclamaram aos quatro ventos que sentiam vergonha de forma dupla, pois, neste caso, tratava-se de um ex-primeiro-ministro.

Augusto Santos Silva admitiu incómodo face a comportamentos que, “a terem existido, significam crimes gravíssimos”.

João Galamba disse que “envergonha qualquer socialista ver ex-dirigentes, no caso um ex-primeiro-ministro e ex-secretário-geral do PS, acusado de corrupção e branqueamento de capitais.”

António Costa, mesmo desde o Canadá, afirmou que a confirmarem-se as suspeitas será “uma desonra para a democracia”.

Por isso não restou outra solução ao “injuriado” Sócrates, a não ser sair do partido.

Logo após, a confusão instalou-se nas hostes do PS. Começaram então as especulações: Quererá Sócrates falar e tentar colocar em xeque quem o abandonou politicamente, utilizando as escutas a que teve acesso durante o processo e que terão sido vedadas aos jornalistas assistentes no inquérito?

Noticiou-se mesmo que José Sócrates terá sido convidado, de imediato, por várias televisões para ser ouvido sobre o assunto. Mas preferiu não falar. Para já, diz-se.

Sócrates justificou-se: “A injustiça que a Direção do PS cometeu comigo ultrapassa os limites do que é aceitável no convívio pessoal e político. Considero, por isso, ter chegado o momento de pôr fim a este embaraço mútuo.”

A sua ex-namorada, Fernanda Câncio, escreveu: “De alguém com uma tal ausência de noção do bem e do mal, que instrumentalizou os melhores sentimentos dos seus próximos e dos seus camaradas e fez da mentira forma de vida, não se pode esperar vergonha. Novidade e surpresa seria pedir desculpa, reconhecer o mal que fez. Mas a tragédia dele, que fez nossa, é que é de todo incapaz de se ver.”