Pérolas e diamantes: A Anita e a Alice

Ainda hoje me indignam as pessoas que, em defesa de uma ideologia, negam a verdade. Ou a deturpam. Ou a invertem. O que vem a dar no mesmo.

Como explicou Orwell, o comunismo foi o grande criador da pós-verdade. Até pessoas como José Saramago e Eduardo Prado Coelho esconderam atrás da palavra revolução a morte de milhões de pessoas às mãos dos algozes comunistas. O ensaísta, e putativo teórico revolucionário Eduardo Prado Coelho, chegou mesmo a utilizar, para esse fim, a expressão “remoção burocrática de populações”.

Essa pequena imprecisão marxista-leninista devastou populações, países e até quase continentes inteiros. Houve, é certo, várias revoluções, sobretudo nas palavras. Mas, ao nível dos factos, elas não foram além da superficialidade.

Só recentemente se começaram a editar, a ler e a compreender os grandes críticos da desonestidade intelectual que o comunismo foi, como Camus, Popper e, principalmente, Orwell.

Sobretudo a literatura dita comprometida e revolucionária caiu no estilo vago e pseudopoético para esconder a forma clássica de violência e de tirania.

No entanto houve intelectuais que tentaram restabelecer, quase sozinhos, a ligação entre a “esquerda” e a liberdade, entre a “esquerda” e um mínimo de flexibilidade e honestidade. Desfazermo-nos da vulgata marxista continua hoje a ser o cabo dos trabalhos.

Mesmo pessoas como Marcelo Rebelo de Sousa, que logo depois do 25 de Abril, utilizou, nos seus escritos, uma linguagem totalmente marxista. A sua capacidade de ser camaleão originou o atual campeão dos afetos.

Sophia de Mello Breyner, pelo contrário, teve a coragem de acusar o PCP de criar “o fascismo do antifascismo”, através do cerco mental que, nos tempos do fascismo e mesmo no período revolucionário, destruía qualquer tipo de honestidade intelectual, sobretudo na apreciação das obras de Agustina Bessa-Luís, Vitorino Nemésio, Jorge de Sena, Vergílio Ferreira, Natália Correia e Ruben A., autores que foram gozados, diabolizados ou silenciados pelo “meio” literário, controlado pelo partido de Álvaro Cunhal (Manuel Tiago), que também gostava de meter as mãos na massa para atacar os escritores lacaios da burguesia.

Houve também alguns diletantes que fizeram questão de, perante situação tão caricata, desculpar-se argumentando que o seu compromisso com o país era mais estético do que ético ou cívico. Ou seja, o seu compromisso com a defesa da liberdade não passava de uma espécie de verniz diluído em acetona. Eram pessoas que suportavam a realidade muito a custo. Definiam-se, entre cigarrilhas cubanas e uísque velho, como irrealistas.

Cristalizou-se então o conceito, que de certa forma ainda hoje vinga, de que a palavra “direita” significa centralismo estatal e liberdade individual e que “esquerda” só pode ser sinónimo de liberdade coletiva e descentralização. Ou seja, uma espécie de salazarismo invertido.

A esquerda democrática veio então a jogo, pela voz de Mário Soares, defender um estado descentralizado que não tratasse os portugueses como crianças e servido por funcionários contratados pela competência e não pela fidelidade canina ao chefe do partido.

 

Mas construir um mundo novo em cima das ruínas do antigo traz problemas insanáveis. Foram os partidos do sistema que trataram de destruir os valores por eles propalados enfiando legiões de oportunistas do aparelho partidário nas instituições dirigentes do Estado.

Se a “direita” em Portugal continua intolerante, conservadora, subdesenvolvida, provinciana e tacanha; a “esquerda” é inflexível, tem má-fé, insultando invariavelmente os adversários, ou dando-lhes sermões. Continua a rejeitar compreender e argumentar.

A “direita” será a Anita e a “esquerda” a Alice no País das Maravilhas.

A “direita” continua a rever-se no cavaquismo, na defesa da política através da tecnocracia, aceitando de mão dada uma espécie de menoridade moral e intelectual, interiorizando o complexo de que a “esquerda” tem ideias enquanto a “direita” só sabe fazer contas.

António Araújo defende que a grande clivagem da sociedade portuguesa não é ideológica ou religiosa, mas sim social. A clivagem não é entre “direita” ou “esquerda”, crentes e não crentes, é entre pessoas que alegadamente têm pedigree e as pessoas que alegadamente não possuem esse pedigree. Elites versus nativos.

O estatuto numa sociedade democrática é conquistado, não herdado. Portugal já não é uma choldra imutável e irreformável, como pensava Eça de Queirós. Em todos os indicadores mensuráveis, a vida política, social, económica, cultural e educativa dos portugueses melhorou consideravelmente. E isto, quer queiramos, quer não, é obra de todos.

 

 

 

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