Passos perdidos: o “bila”

O Sport Clube de Vila Real fará cem anos em 2020. Não sendo o único clube do concelho, nem tão pouco da cidade, o certo é que milhares de vila-realenses terão, como eu, as suas primeiras memórias ligadas ao futebol pintalgadas com as cores da camisola alvinegra do Bila. No meu caso, levado pela mão do meu pai, cedo conheci as bancadas do Calvário, onde mal me sentava durante 90 minutos, enquanto sonhava duplicar as façanhas do pelado, pontapeando de um lado para o outro qualquer objeto substituto de uma bola. Não tendo sido bafejado pela Natureza com dotes artísticos que me permitissem mais, ficou para sempre o hábito da consulta semanal, num qualquer jornal desportivo de segunda-feira, para acompanhar o percurso do clube, mesmo distante fisicamente da cidade. Outros haverá, mais antigos, cujas únicas memórias de desporto ao vivo terão sido proporcionadas pelo SCVR nas várias modalidades, e outros haverá, mais novos, que mantendo a perceção da mística do Calvário, já acompanharam sempre a equipa de futebol no Monte da Forca.

Será talvez do senso comum dizer que o futebol mudou muito nos últimos anos. Afinal, a expressão aplica-se a quase tudo na nossa vida, o mundo é composto de mudança, como dizia o poeta, e este particular não é exceção. O que move, então, hoje, os clubes? Que projetos podem apresentar às sociedades onde se inserem? Que relações podem, devem e têm de estabelecer com essas comunidades?

A primeira lógica, imperativa, é hoje a sustentabilidade financeira de qualquer projeto desportivo. Longe dos tempos em que os clubes de futebol refletiam lógicas de investimento público, não é hoje aceitável que o dinheiro dos impostos dos contribuintes seja gasto em futebol profissional. Os clubes devem ver ser-lhes atribuídos quaisquer fundos públicos de forma transparente e proporcional à função social que desempenham junto dos jovens, função essa que é muito relevante e que deve ser bem apoiada, mas sempre nesse pressuposto.

Quer isso dizer que o futebol profissional não tem lugar nos clubes? De forma alguma! Essa vertente deve existir, até como corolário da formação jovem para a competição. Deve é ser encarada, também ela, de forma profissional e totalmente separada do futebol de formação, no que diz respeito à sua estrutura de gestão. E a sua dimensão financeira, nomeadamente, deve refletir o valor da marca do clube e a sua atratividade junto daqueles que devem ser os verdadeiros responsáveis por alimentar, com os seus recursos, os projetos do clube, ou seja, os seus sócios e os seus patrocinadores.

Qual deve, então, ser o pilar fundamental da atividade de um clube? Aqui é necessário abrir um parêntesis para explicar que o SCVR é um clube com uma História particular de ecletismo na nossa cidade e que, por esse motivo, a diversidade de modalidades a ser oferecidas aos jovens vila-realenses deve ser a máxima possível, nomeadamente em nichos que outros clubes não tenham ainda preenchido. Mas é inegável que o futebol ocupa um lugar de destaque na oferta do SCVR e tal deve ser assumido sem complexos, até pela ligação obrigatória a um projeto profissional sénior.

Aqui entroncamos naquela que deve ser o segundo aspeto, também ele fundamental e que é o primado da formação integral de excelência dos jovens atletas do clube. Esta formação de excelência deve ser, não apenas desportiva, mas essencialmente humana, tendo em vista que apenas uma pequena parte dos atletas terá capacidade de viver autonomamente do desporto profissional mas que todos serão mulheres e homens plenamente integrados na sociedade e que os valores que lhes forem incutidos no desporto os acompanharão para sempre. O clube não deve ceder, também, à tentação de monopolizar atletas em quantidade, mas sim fazer valer as suas ambições de maior clube local e procurar a excelência de desempenho, numa lógica de sã convivência com as outras agremiações do concelho, que também precisam de atletas.

São apenas algumas ideias, sendo certo que, para os dias que se avizinham, mais importante do que encontrar divergências, será importante que o Bila encontre ideias mobilizadoras, de que estas podem, eventualmente, ser exemplo, para enfrentar o começo de um novo século de vida.

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