Os nus e os urubus

Por: Ribeiro Aires

Descalços.  Esta crise apanhou todos descalços. Todos são todos. Do oriente ao ocidente. Quando demos conta, procurávamos as meias e não as encontrámos. Procurámos os sapatos e eles não estavam no lugar, nem sequer em casa. Então, de repente, olhámo-nos de alto a baixo e vimo-nos nus. Fomos ao guarda-roupa e só lá havia cruzetas vazias. Procurámos uma manta, um cobertor, uma toalha e não encontrámos. A casa estava vazia.  Então, perguntámo-nos: porque estamos descalços se nos fartámos de comprar sapatilhas, dois pares para cada dia da semana, se comprámos tantas calças, camisas, gravatas, camisolas, vestidos,  blusas, colares, anéis, etc.?

Nós andávamos felizes, com uma vida regalada, a pensar, tantas vezes no supérfluo. Já tínhamos as férias no horizonte, bem longe, para poderemos gastar dinheiro, muito dinheiro, porque a vida é para ser vivida e o dinheiro que se lixe. Muitos de nós,  ficámos sem o “pé de meia”, porque, no dia seguinte, havia outro dinheiro a ganhar e para gastar, quando surgisse nova oportunidade.   Caminhávamos nas nuvens. Tínhamos turismo até enjoar. Nas «lisboas»  deste país, criou-se  «alojamento local», expulsando pessoas velhas com arrendamentos antigos, como a «Sé de Braga», para engrossarmos os rendimentos, abandonando à sua sorte os desprotegidos.

 Acreditámos na ciência, que tudo resolveria, fosse qual fosse o pior dos males, tal e qual como aconteceu na segunda metade do século XIX. Então, o cientismo/positivismo fez dela uma religião. Acreditámos que podíamos consumir, consumir e deitar fora.  E veio o vírus e deixou-nos nus. A todos. Do oriente ao ocidente. Queríamo-nos vestir. Mas não havia roupa para todos,  ao mesmo tempo. Do oriente ao ocidente. As indústrias não fabricavam aquilo que, de repente, era necessaríssimo. Então, se não queríamos andar nus na rua, o melhor era ficarmos em casa. E se não queríamos morrer assim, ficássemos em casa. Mas tem havido gente a morrer: do oriente ao ocidente. E se o capitalismo do urbanismo desenfreado atacava os velhos, eis que  esta epidemia inesperada, que os sábios  não conseguem, ainda, entender,  vem com a missão  de eliminar  aqueles que teimam  numa maior longevidade.

E, logo, uns outros nus  apareceram a rir-se dos primeiros  nus e  a  perguntar  àqueles  se não tinham vergonha de estarem nus.  “Vergonha,  veeeerrrrgonhaaaaa!” gritavam,   gritam e gritarão  eles. Mas eles têm um objectivo concreto. Sabiam ou sabem que este  é o momento de iniciar um reinado.  Pelo menos pensam assim. Não querem, pois, perder a oportunidade. Já pedem a “cabeça João Batista numa bandeja”. Isto é:  querem a quarta república, porque esta incomoda, «não serve», atrevem-se a dizer. E estes nus, ainda, nem sequer sabem como se vestir, nem a que costureiro devem encomendar a costura do traje. E outros como eles apareceram, e aparecerão, com uma solução, uma nova solução para deixarem de estar nus. Quantos descerão a Avenida?

Às hienas juntam-se sempre os mabecos, os cães da padraria e os urubus. Cautela!

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