Os mediopatas

Por: João Madureira

Cada um tem o seus Deus pessoal com quem pode falar, discutir e até zangar-se.

Uma coisa vos digo: é necessário mais coragem para reconhecer um erro do que para persistir nele e ainda muita mais para fazer as pazes em vez de declarar guerra.

Tudo na vida depende mais do caráter do que dos princípios.

É a arrogância que faz desmoronar a fachada esplendorosa dos mitos. Quase todo o altruísmo é uma forma de catolicismo hipócrita. São os mediopatas os que triunfam na sociedade. A virtude levada ao extremo transforma-se num vício.

À medida que o tempo passa, penso cada vez mais como o meu amigo “Gafitas”. A minha confiança nos jornalistas, sobretudo nos jornalistas tidos como sérios, diminui a cada dia que passa e os problemas se tornam complicados. São os piores. Eles é que fazem tudo para nos enganarem, não os frívolos. Os jornalistas frívolos mentem mas todos nos apercebemos das suas mentiras. Pouca gente lhes dá importância. Já os jornalistas sérios, ostentando o seu estatuto, mentem escudando-se na verdade, porque sabem que a gente de bem acredita neles. Por isso é que as suas mentiras provocam tantos danos.

Devemos desconfiar daqueles que dizem duas vezes seguidas que têm a sua consciência tranquila. São pessoas que se estão a acusar, e a escusar-se, sem que ninguém as tenha acusado.

Há pessoas que passam uma vida a escrever, tentando convencer os outros da sua verdade. Acabam por dizer tudo. Tudo. Mas tudo aquilo que dizem e escrevem é mentira. Eles fingem a sua verdade e proclamam a mentira dos outros. Entusiasmam-se com os apontamentos, com os retalhos e com as lembranças soltas.

A ficção supera sempre a realidade, mas a realidade é sempre mais rica do que a ficção. Muitas explicações convencem menos do que uma só.

Olha, está a chover! As crianças abandonam o descampado onde estavam a jogar. Um cavalo fica imóvel vendo cair a chuva. O olhar do cavalo parece o de um ser humano.

Penso que os portugueses apenas estão de acordo quando discutem uma coisa: Hitler. E todos gostam dos filmes da Disney. Por isso acreditam nas comédias e na magia. E também gostam de jogar às cartas. E trincar bolinhos de bacalhau.

Também apreciam fingir-se de adultos, quando são crianças. E de se comportarem como crianças, quando são adultos.

E também consideram que a vida tem sentido. E até Deus.

Talvez eu não seja bem português porque, tal como Woody Allen, acho que a vida é um absurdo porque não tem lógica alguma. De facto, “a procura do homem por um deus num universo sem sentido é violento”.

Um dos filmes do mestre do cinema humorístico que mais me tocou foi o Zelig, que aborda a necessidade de todos querermos ser aceites e integrados, evitando ofender os outros até ao ponto de apresentarmos uma personalidade diferente a pessoas diferentes, não sabendo qual das personalidades representadas irá agradar mais o nosso interlocutor. Pois, como todos sabemos, é este tipo de obsessão pela conformidade que acaba por nos levar ao fascismo. Ou ao comunismo.

Por certo, tanto o bem como o mal são uma questão de sensibilidade. Mas uma coisa aprendi com o tempo, apenas os pobres têm problemas de consciência.

É frequente adularmos as pessoas com franqueza e moderação, quando precisamos delas. Mas convém não esquecermos que estamos a mentir.

Ser líder significa ser um exemplo. Ou seja, se os líderes forem competentes, todo o povo será competente. Agora olhem em vosso redor e tirem as devidas conclusões.

Temos de aprender com eles a forma como nos devemos dirigir aos funcionários do restaurante, a maneira como pegamos na lista, a forma como apontamos uma garrafa de vinho, como nos acomodamos na mesa e, sobretudo, a maneira como encetamos a comer de forma comedida, sem voracidade e respeitando os demais convivas. E também a conter a nossa verbalização durante o jantar.

Eu admiro todos aqueles que, de uma forma ou de outra, se comportam com firmeza e circunspeção, tanto quando ouvem como quando falam, nomeadamente os paladinos das causas próximas que, de imediato, fazem suas. Cruzo então com eles olhares de simpatia.

Até nisso são gente distinta.

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