Os Galegos em Lisboa

Opinião

O professor Fernando Venâncio gosta de nos lembrar que um crescente conhecimento do passado e do presente galegos é bem capaz de minar alguma das nossas certezas. E dá alguns exemplos triviais.

Proclamamos com orgulho desmedido que se não fossem os portugueses o Mundo teria ficado sem três maravilhas: a saudade, o infinitivo pessoal e as cantigas de amigo. E destas efabulações fizemos doridos fados e engenhosos ensaios. “É um espetáculo deprimente. Porque tudo isso, e bastante mais, trouxemo-lo do fornecido celeiro de origem, onde já se tinha inventado a saudade (a palavra e a coisa), onde já o infinitivo pessoal fizera corrente (e, à cautela, se assegurara o futuro do conjuntivo) e onde se começava a internacionalizar a cantiga de amigo, o género mais “in” de toda a largura norte da Península.”

Rodrigo Vaz, coordenador do livro “Os Galegos nas letras portuguesas”, define-os como um povo generoso, sempre pronto a servir de intermediário de recados de amor, que foi para Lisboa ver se governava a vida, tentando passar o mais discretamente possível. Como se fossem transmontanos, digo eu.

Lembra-nos que este esforçado povo foi presença marcante nos últimos séculos em toda a capital portuguesa, tendo exercido as mais variadas profissões, todas exigentes do ponto de vista físico: estivadores, aguadeiros, mariolas, amoladores e carregadores, bolseiros e pitrolinos.

Depois subiram de condição e passaram a servir de empregados de mesa. Mais tarde chegaram a ser proprietários de tascas, restaurantes e negociantes imobiliários. Nos últimos anos podemos ver os mais afortunados com o estatuto de grandes empresários.

No século XVII era frequente encontrá-los nas esquinas da Rua Augusta, à espera de clientes. E também no largo hoje denominado como Chiado, então conhecido como Ilha dos Galegos.

Tinham os galegos (nem que fossem transmontanos, digo eu) muitos aspetos positivos enumerados pela princesa Ratazzi (ai estas princesas) no seu livro “A Formosa Lusitânia”, numa tradução de Camilo Castelo Branco, definindo-os como: Os melhores criados, mais trabalhadores, honestos, briosos e fiéis, além de bons carregadores, aguadeiros e padeiros. “Se a gente precisa de um portador fiel, chama um galego.”

É geralmente reconhecido que os galegos são os responsáveis pela implantação, em Lisboa, de vários petiscos que ainda hoje fazem parte da ementa dos alfacinhas.

Rodrigo Vaz disso nos dá conta. Desde logo a meia-desfeita, prato assim denominado por ser uma dose para duas pessoas que, por ser partilhado, ficava mais barato; a mão-de-vaca, que tal como a meia-desfeita, se baseava na utilização de grão-de-bico (até porque o grabanzo galego ou o ervanço beirão eram a matéria principal na confeção do caldinho de grabanzo, uma invenção de João do Grão que muito nome e fama lhe vieram a dar); também as “iscas” que os galegos começaram a servir com “elas” (batatas fritas às rodelas); ainda o caldo verde, cuja base é precisamente a couve galega; o bitoque, que tomou o nome de um galego atarracado que o começou a servir; além do famosíssimo prego, assim denominado por ser feito com as pontas da carne; e do apreciado caldo de camarão.

Convém referir ainda a importância dos galegos na higiene da capital portuguesa, pois sem o seu trabalho, ela seria mais suja e mais insalubre. Estes nossos irmãos foram fundamentais na distribuição de água e na criação do primeiro serviço de bombeiros, que se revelou de capital importância numa época em que havia muitos incêndios, especialmente durante o verão.

Revelaram também a sua importância no transporte dos doentes para os hospitais, na deslocação dos mortos para os cemitérios, na construção do Aqueduto das Águas Livres, no tempo do Marquês de Pombal, e ainda na reconstrução da cidade de Lisboa após o terramoto de 1755 e nos trabalhos do convento de Mafra, não esquecendo que foram os pioneiros da Companhia das Águas, como o confirmam os registos que dão conta dos 3000 galegos que, no século XVIII, se forneciam em 29 chafarizes.

Em Lisboa, ligada aos galegos está desde há muitos anos a capela de Santo Amaro, no Alto de Santo Amaro, conhecida como a capela dos Galegos, por estes venerarem este patrono dos membros superiores e inferiores, que, bem vistas as coisas, é a ferramenta essencial para o seu trabalho.

João Madureira

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