Os caracóis e lesmas da Avenida

Por: Ribeiro Aires

Domingo, último de Setembro. Primeiras horas da tarde. Sentei-me  na esplanada da Pastelaria Gomes , coisa rara, pois a Senhora da Conceição é o meu território predilecto e, se ultrapasso as suas fronteiras,  vou até ao Pioledo, casa do Notícias de Vila Real, ao Arquivo Distrital, onde há saberes para desvendar, tal como do outro lado do rio, na Biblioteca Pública,  espaço do saber  que não me tem visto com frequência nos últimos tempos,  devido  a uma não necessidade premente de pesquisa  aturada no acervo que por, ali,  há aos montes e à espera de verem a luz do dia. O Nosso Shopping também se tem queixado da minha ausência dominical, justificada pelas restrições pandémicas.

Domingo, último de Setembro. O céu estava azul, matizado aqui e ali por pinceladas  de nuvens, visto dali do Largo do Pelourinho.  Pensei eu que, quando o relógio da Sé já há largos minutos ultrapassara  as 14 horas,  não encontraria lugar vazio na esplanada. Enganei-me. Não era preciso fazer leilão. Era só escolher a mesa.   Estranhei. Culpa do coronavírus? 

Havia, assim, como que um silêncio estranho, pelo que se ouviam as poucas conversas de quem estava próximo. Bastava que os ouvidos não tivessem um cesto de cerume.

À minha esquerda,  pai, filha e genro, aquele com a sua idadezinha, estes, certamente, de visita à  «Bila», vindos sabe-se lá de onde. Foi, deduzi, pela conversa que o meu ouvido captava, enquanto ia lendo um artigo esfarrapado de Gonçalo M. Tavares, na Revista Expresso. Falavam da data longínqua da fundação da Pastelaria.

– Não mudou quase nada.  A mesma traça, as mesmas mesas, a mesma marmorite, o mesmo balcão. Restaurado, sim. Ó pai, na sua juventude havia esplanada?

– Para quê? Então, aqui só vinha gente engravatada, então – respondeu ele.

– Mas o Excelsior….

– Também. P’ra gente fina.

– O Clube…  era para os pobres …- insistia ela.

– Era para os outros – concluiu ele, sem se alongar em considerandos.

 A um conhecido, ela perguntou:

– Olha lá, este ano há 1º de Dezembro?

– Há de certeza, morra quem morrer, viva quem viver.

Riram. Todos perceberam. O calendário é o calendário.

– E estas obras, pai?

– Uma arrelia. Uma arrelia – resposta seca. Como o tempo.

De dentro, onde nem vivalma se sentara, ouviam-se as vozes das “técnicas de extração de café”, com diploma pendurado na parede, lá em casa. Digo eu. Percebem de quem falo. Um pequeno conflito sobre quem tinha a melhor qualificação para «tirar uma bica». Nada que afugentasse as pombas, freguesas habituais no largo.

Não demorou muito tempo até que, à minha direita, se tivessem sentado dois casais conhecidos. Um com máscara, outro sem. Ouviu-os falar em figos, de que gostavam muito, do modo de os conservar, alertando para a falsidade dos ramos da figueira, muito quebradiços, logo facilitadores de quedas. Depois foi o futebol a dominar as conversas. Mas adiante.

Levantei-me. Pus a máscara, cheguei-me ao limiar da porta, dei dois passos no interior e paguei os 0,80€ do café mais caro de Vila Real e ainda perguntei se o pacote de açúcar que o acompanhou era, ainda, do lote, da inauguração do estabelecimento, pois foi preciso dar-lhe um murro para que os grãos se soltassem  no interior da embalagem. “Que não, disseram. Era daquela semana». Muito estranho, dada a dureza.

Saí dali com os olhos nas obras da Avenida. Fui espreitando por aqui e por ali e só descobri caracóis e lesmas aflitos,  com  máscara obrigatória, presa às antenas. Precisavam  de um sítio umbroso, fresco, húmido. Haviam-lhe falado num bosque, num regato a correr, numa fonte de chafariz, mas não viam nada, só marões, alvões, vales profundos, tudo numa secura extrema… Precisavam de um mapa que os orientasse e de uma cronologia para saberem o que fazer à vida.  Ouviram dizer que em frente ao tribunal havia erva a crescer há meses nuns montículos e que no sopé da Carvalho Araújo cresciam  uns pequenos arbustos … mas não eram suficientes para as suas necessidades. Só tinham uma secreta esperança:  quando chovesse, chovesse, talvez a segunda vaga das obras arrancasse, e   elas e eles saboreassem a frescura do bosque e se deliciassem no regato que iria ter ao chafariz, ali nas barbas do novo «rossio». Que esperem, pensei eu. Soubessem lesmas e caracóis os mil trabalhos da autarquia, soubessem eles…

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