Os bons velhos tempos

Por: João Madureira

Quem desconfia, fica sábio. Por vezes nós não gostamos ou desgostamos das coisas. Não nos habituamos é a elas.

Para os ecléticos tudo depende de tudo. E de mais alguma coisa. São como os músicos que tocam sem pauta, pois sabem de cor as músicas que devem tocar para agradar.

A maioria das pessoas prefere não pensar em nada. Quer é que o dia passe a correr para seguir em frente.

Antigamente muitos homens andavam com as botas aos ombros para as não gastar. As mulheres mais velhas e gorditas usavam laços ao pescoço para lhes suster a papada. E as pessoas, sobretudo as mais pobres, ficavam com as orelhas e os dedos cheios de frieiras.

Era normal as pessoas passarem ciclicamente por momentos difíceis. Havia muitas que nunca passavam por nenhum que fosse bom. E havia determinadas horas do dia em que grande parte das pessoas, sobretudo os homens, ficavam bêbedos.

Antigamente havia muitos milagres. Sobretudo entre os mais necessitados. Nascia-se por milagre, comia-se por milagre, vivia-se por milagre. E até se morria por isso mesmo.

Nas igrejas glorificavam-se muito essas coisas. As senhoras respeitáveis não saíam à noite e muitos pobres fingiam-se de coxos para pedirem esmola, especialmente à saída das igrejas, onde se rezava para que Deus ficasse mais fofinho.

Antigamente faziam-se muitas horas extraordinárias. A verdade é que muitas vezes nem com esse dinheiro extra as famílias conseguiam viver dignamente. Os homens, então denominados chefes de família, regressavam aos seus casebres tristes e de mau humor, já com um grão na asa, e punham-se a bater na mulher e nos filhos.

Por incrível que pareça, sobrava muita comida. As pessoas comiam muito disso. Sobras. Quando se comia carne, sobravam os ossos que, depois de bem limpos, eram dados aos cães.

Antigamente fazia muito frio. O dobro do frio de agora. Ou o triplo. Nem os cães podiam andar na rua. E olhem que eram cães de uma resistência quase insubmissa.

Liam-se muitos livros de Milagres, Santos e Santas. Por exemplo, sobre Santa Teresa de Ávila. E os escritores dessas obras primas eram tão eruditos que conseguiam escrevê-los sem uma única cacofonia.

Os namoros eram então muito mais românticos. Quando os namorados não tinham dinheiro, para oferecer prendas às namoradas, escreviam-lhes versos que as faziam corar. Elas, em troca, davam-lhes beijos muito suculentos. Já o resto só depois do casamento.

A luz tremia muito. Era tímida e fraca. As lâmpadas fundiam-se com frequência. A luz era cara. Bem, a luz ainda continua a ser cara. Utilizavam-se também velas, candeias e candeeiros a petróleo.

E também se ia às touradas sem se ser insultado. E ao futebol sem se ser agredido ou cuspido. E ao cinema quando se tinha poupado algum dinheiro no lanche dos domingos.

E havia gente tão gentil e bondosa que não acreditava que os trabalhadores deviam ser mortos à fome a pouco e pouco. Afinal eles, os pobres coitados, também tinham de comer, apesar de, quase sempre, serem feios, porcos e maus.

Depois, quando a luz vinha mais forte, até os pratos, e a outra louça, parecia que engordavam. Fora isso, tudo o resto lá em casa era delgadinho. A ceva, as galinhas e os coelhos. Nessa altura ainda não havia colesterol.

As ideias eram muito direitas. Muito imediatas. E o amor baseava-se na fidelidade.

Naquela altura meditava-se com tudo. Até com os preconceitos morais. E decoravam-se parágrafos inteiros dos romances de amor.

Os mais crédulos rezavam o credo até adormecer.

Antigamente tinha-se muita paciência. Até de mais. Agora todos fervem em pouca água.

E adquiriam-se muitos direitos por usucapião.

E os dirigentes gostavam de tratar bem os seus subordinados. Gostavam que eles se sentissem bem. Que prosperassem, dentro de certos limites. Havia muitas empregadas domésticas, também conhecidas como sopeiras.

E comiam-se muitas sardinhas em lata. Que eram boas para a prisão de ventre, evitando os clisteres, que não estavam ao alcance de qualquer um.

E os maridos e as mulheres sorriam com ternura. E abraçavam-se. E beijavam-se. Havia dias em que as coisas corriam bem. Apesar de correrem mal.

Naquele tempo um mandava. E os outros obedeciam. Hoje já não há nada disso.

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