Oportunidade para o interior

Caseiro Marques

Por: A.F. Caseiro Marques

A população de Vila Real baixou dos 50.000 habitantes. Apesar dos esforços feitos pela autarquia e o peso da Universidade, a que se alia a existência de um conjunto vasto de instituições, quer na área da saúde, quer no ensino, há um sector que pouco tem crescido, que é o empresarial e mormente o ligado à indústria.

Antes da construção do IP4, existiam várias indústrias em Vila Real que, aos poucos, foram desaparecendo ou reduzindo a sua actividade. Excepção apenas para a fábrica de montagem de equipamentos para automóveis.

Naquela altura, no início da década de noventa do século passado, ouviu-se gritar bem alto, que “agora é que é!”

Rebate falso. Nada aconteceu de extraordinário e os anos que se seguiram, apesar das muitas obras e de muitos milhões gastos, foram duas décadas perdidas, em que Vila Real não cresceu. É verdade que se alindou a cidade, com a construção de rotundas e a eliminação de alguns constrangimentos nas entradas da cidade. O resto foi folclore e manifestação de uma incapacidade vergonhosa de atrair empreendimentos de vulto que trouxessem gente para a região. Instalaram-se centros comerciais e supermercados, que tiveram como resultado o abandono do Centro Histórico e o encerramento de muitas lojas do comércio tradicional, levando à desertificação humana daquela zona da cidade. Faltou ambição, trabalho e organização para dar a volta por cima ao contrário do que aconteceu com outras cidades e vilas mesmo no interior.

Nos últimos anos, tem sido feito algum esforço no sentido de remar para a frente e fazer com que o concelho e a região ganhem outro fulgor, mas, como se está a ver, os resultados não são nada animadores.

Apetece gritar de novo “agora é que vai ser!” Vem aí muito dinheiro.  Algum dele virá certamente para desenvolver o interior. Mas há ideias? Há projectos? Haverá empresários em Vila Real decididos a arriscar na criação de empresas industriais? É que de empresas de serviços já estamos saturados. Parece que o atavismo dos transmontanos aumentou, em vez de olharem para outras regiões onde há gente que arrisca e mete as mãos na massa, criando empresas e chamando gente para trabalhar. Alguns, vindos de fora, deram o exemplo, infelizmente pouco seguido pelos que aqui nasceram e vivem. 

Os poucos empresários das antigas famílias vila-realenses desapareceram do mapa da indústria e do grande comércio da cidade. Se riqueza havia, ela esfumou-se como por milagre. Alguns venderam os anéis e os dedos. Outros faliram. Por outro lado, os novos ricos preferem apostar nos serviços. Apenas uns quantos moicanos, agarrados aos valores tradicionais, apostaram na agricultura e ainda no turismo como tábua de salvação e vêm conseguindo sobreviver, no exercício de uma actividade que herdaram dos seus antepassados e que sabem fazer bem. É de louvar a atitude proactiva desses homens e mulheres que arriscam e dão bons exemplos a outros que preferiram amouxar e nunca mais levantaram a cabeça, preferindo viver dos rendimentos ou sucumbindo paulatinamente perante a avalanche de “estrangeiros” que invadiu a cidade.

É aqui que cabe uma responsabilidade muito grande ao actual executivo de, no momento actual, para além das obras que vai realizando na cidade, alargar as vistas e meter pés ao caminho em direcção a Lisboa, no sentido de trazer mais empresas para a região. E atrás das empresas, que venha gente para fazer crescer a cidade, não permitindo que, por inacção, tenhamos uma cidade bonita e moderna, mas vazia de pessoas. 

Uma ideia: tragam um comboio até Vila Real que nos permita ir daqui e regressar directamente, sem termos de nos deslocar ao Porto ou à Régua para seguirmos até Lisboa e outras cidades do país. Não é reposição da antiga linha. Deverá ser uma linha electrificada e um comboio rápido, que encurte o tempo das deslocações. Falam em descarbonização? Aí têm uma forma de evitar ou minorar a poluição causada por largas dezenas de autocarros que todos os dias entram e saem da cidade e circulam pelas nossas estradas. Assim se contribuiria para uma melhor qualidade de vida de quem aqui vive e trabalha ou pode vir a trabalhar.

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