Óculos de sol para cegos

Sempre ouvi dizer que a ambição pessoal não assenta bem a um socialista.

Todos sabemos que apenas nas ratoeiras o queijo é oferta gratuita.

Não se pode governar a favor dos interesses de quem nos contesta, indo contra os direitos e deveres de quem nos apoia. Quem exerce o poder não pode levitar, mesmo que possua essa capacidade mediúnica. 

Os homens sem memória não possuem visão do futuro. 

Provérbios chineses ensinam que numa grande árvore há sempre ramos mortos, que os melhores soldados nunca são os belicosos e que a boa lenha pode estragar um fogão. Mas é conveniente não esquecer que uma balança precisa sempre de pesos. 

Foi com os gregos que aprendemos que as pessoas podem usar máscaras mesmo fora do teatro, pois se a máscara do ator serve para ajudar a ver quem é suposto ele ser, as máscaras das pessoas servem para as disfarçar. 

O problema das máscaras é que criam adição e depois não se pode viver sem elas. Por isso louvamos o fingimento. 

Por isso é que a história nos faz lembrar a pessoa importante e o dia em que ela morreu, fazendo-nos esquecer todas as outras. 

A arrogância é sempre sinal de fraqueza. São sempre os homens fracos que causam o maior mal. 

“Há sempre razões para ter esperança”, dizem eles, os tais que possuem uma grande reserva de frases-feitas e apreciam fazer pausas dramáticas depois de as proferirem. 

Depois de escutarmos as suas ideias modernas, a maioria de nós, os mais crédulos, sofremos um choque extremamente admirativo. 

Essencialmente exportamos duas coisas: fado e futebol. Fátima é agora apenas um produto de contrafação. A Festa do Avante é mais respeitada que a Festa do Treze de Maio. 

Por causa das coisas, devemos questionar uma crença que trai os seus crentes com muita prontidão. 

Pergunto-me muitas vezes se crer é uma espécie de patologia, devido à sua capacidade de contágio e aos efeitos perversos que provoca.

O erro da mentira não é a verdade.  

Anda por aí muito sociopata de sorriso angelical, de cruz ao peito ou com camisola do Che Guevara. Dizem ser cidadãos leais à república democrática da treta. 

Dizem também andar em busca de consensos. Mas o consenso, afirmam os audaciosos, é o principal objetivo das mentes fracas. É difícil arranjar um consenso entre o ballet e as danças folclóricas. O Lago dos Cisnes e o Malhão não são mescláveis, por mais piruetas que se ensaiem. O resultado apenas pode deixar as bailarinas a dar às asas, esbaforidas, e os homens e as mulheres dos regadores a mandar a água fora sem jeito, nem trejeito. 

Os revolucionários são gente curiosa. O seu Papa, conhecido como Lenine, um dia, após ter ouvido a Sonata 23 de Beethoven, reagiu com estas palavras: “É uma música maravilhosa, etérea, mas sou incapaz de a ouvir. Faz-me ter vontade de acariciar as cabeças dos meus contemporâneos por serem capazes de criar coisas tão bonitas apesar do inferno abominável em que vivem. É preciso esmagar essas cabeças, esmagá-las sem dó nem piedade.” Dizem que só se escutavam sussurros. 

Garantem que é necessária mais coragem para defender as nossas próprias decisões do que para criticar as dos outros. 

O amor com amor se paga. É tudo uma questão de aritmética moral e de paralelismo sociológico. Oi, onde é que isto nos pode levar.

O gangue dos cabeças rapadas, apoiantes de Hitler, agora deixaram crescer o cabelo até ficarem parecidos com bons pais de família. E vão a Fátima rezar à Virgem Maria. Eu só rezo para que haja inferno. 

Estou em crer que muita dessa gente pratica o passatempo de asfixia autoerótica como antecâmara de preparação sincronizada dos chuveirinhos de Auschwitz. 

Essa gente alimenta-se do sentimento de culpa das outras pessoas. O gato infernal observa-nos sempre pelo meio das pernas desses bem-aventurados. 

Há ainda quem não tenha percebido a ciência da autodestruição. 

Num solo com muito estrume, uma semente quase não necessita de sol para vingar. 

O capitalismo é aquilo que todos sabemos. O comunismo falhou estrepitosamente. E, para se completar a trindade divina, o fascismo está em ascensão. 

Claro que lhes vamos ganhar com os tais pequenos gestos de boa vontade que definem a humanidade. 

É possível que, por vezes, as mãos nos tremam um bocadinho. Mas a maioria de nós vai pensar com sensatez. 

Podem tirar as selfies que quiserem e fazerem a saudação romana para ver se ganham dimensão e autoridade, mas nunca deixarão de ser gente ordinária. 

Que nós saibamos, abrir sepulturas e brincar com cadáveres continua a ser ilegal. 

A verdade é que os cegos costumam usar óculos de sol. 

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