Obrigada!

Por: Anabela Quelhas

Há 30 anos, quando decidi viver em Vila Real, os meus amigos perguntaram-me:

— Que encantos tem Vila Real, para ires viver para a parvónia?

Expliquei sobre uma cidade pequena com tradição, com história, o regresso às minhas origens visigóticas e talvez pagãs, as vantagens de viver numa cidade pequena, com pessoas genuínas que conviviam e negociavam com as pessoas das aldeias próximas, às terças e sextas, dias de mercado, e todos os dias na praça de S. Pedro. Expliquei-lhes sobre o chamamento do telúrico tão bem descrito por Torga, o mar de pedras, de economizar tempo em transportes, viver a 5 minutos do meu local de trabalho… expliquei-lhes sobre o cabrito no forno, os doces conventuais, sobre os canastros e as cascatas do Alvão. Finalmente arrumava com eles falando sobre Panóias, Nasoni e uma obra de Nadir Afonso, que admirava todos os dias e me fazia viajar no tempo até Le Corbusier, Óscar Niemeyer e o meu conterrâneo, Vasco Vieira da Costa.

Após os meus argumentos, eles diziam:

— Quando podemos ir aí passar o fim-de-semana?

Agora perguntam-me, porque continuas aí?

— Estou aqui, não sei até quando… a história não se apaga, as minhas origens continuam, a cidade continua pequena, porém, profundamente alterada, eu não mudei de casa mas agora posso demorar 30 ou 40 minutos para regressar do trabalho, porque a organização do trânsito piorou, (eu explico, nas eles não entendem)  pago estacionamento em qualquer sitio do centro, deixei de ter visitas, porque não têm onde estacionar o carro, estou a perder qualidade de vida, tenho um grande Lidl e não estou feliz, já não me lembro de Nadir, só penso em promoções de cuecas, grelhadores e couve roxa. As pessoas do campo já não se encontram com as da cidade, agora, sem distinção, passam os fins-de-semana no Shopping. Como menos cabrito e mais hambúrgueres e pizzas.

Após os meus desabafos, eles dizem-me:

— Vem até aqui, pelo menos vês o mar.

Hoje ao final da tarde, entrei no Jardim da Carreira, cumprimentei Laura Afonso, reforçamos a nossa cumplicidade, falei pela primeira vez com uma professora da Utad e ao fim de meia hora, ela lamentava-se de ter trocado o Porto por Vila Real, apresentando as suas decepções sobre a pequena elite que gere, e mal, a cultura em Vila Real, ouvi, concordando e discordando, consoante os casos. Fiquei a pensar no desânimo de alguém que já gostou muito desta cidade e actualmente pretende sair daqui, rapidamente — mágoas urbanas e culturais.

Seguiu-se a apresentação do filme de José Paulo Santos sobre a panificadora demolida.

Fui a primeira a chamar à razão os cidadãos da Bila, para este caso do seu património, depois ganhei distanciamento à causa, faltando-me resiliência às questões políticas e às estratégias pouco transparentes utilizadas, que já adivinhava que terminariam mal. Hoje também me afastei um pouco, permanecendo no local, de forma discreta, porque me emociona esta causa perdida, por lamentar que os cidadãos e os responsáveis políticos não respeitem a cultura e o património de todos. Opor a um ícone da arquitectura portuguesa, que nos leva aos gigantes da arquitectura do século XX, um supermercado cheio de bróculos, papel higiénico e farelos de aveia, deixa-me desconfortável e preocupada. Acho tudo isto incrivelmente pequenino. Nem um painel de azulejos de Nadir apagará esta vergonha, pelo contrário, é uma solução tão ridícula que acentua a vergonha. Prefiro o vazio.

Parabéns Zé Paulo, fica o registo cinematográfico da nossa memória. Obrigada.   

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