O medo que nos guarda

Hoje fico em casa. Assim me ordenam, porque pertenço ao grupo de risco. Estou definitivamente velho, ainda que não seja só por isso. Vou ao espelho constatar que é verdade. E ele logo me diz que há muitas pessoas mais lindas do que eu, sem rugas, com cabelo farto, frescas. Estou tramado. Vergado pela sentença que o meu reflexo dita: cuida-te. E não foi o decreto presidencial o culpado, nem o  primeiro ministro,  que lhe fez a vénia, assinando medidas  proibitivas – lá se foi o slogan “é proibido proibir” -, mas  o medo trajado de vírus. Que digo eu? Trajado? O cinema deu-nos o “homem sem cabeça”, mas também o  “o homem invisível”,  agora temos – desta espécie todos são assim –  um ser «coroado»,  invisível e de uma «raça»  pior que  milhões de buldogues e  outros cães danados. 

O medo é tão velho como Adão e Eva. Nasceu com eles. E foi Deus que lhe transmitiu esse «vírus»: não comais da árvore da vida. Mas este medo incutido naqueles que, biblicamente, são o inicio da humanidade, aguçou o apetite a Eva.  Que vida?, interrogou-se. Deu voltas à árvore. A fruta cheirava bem.  Não se controlou quando a  arguta serpente percebeu  a excitação que dominava a única mulher à face da terra.  Adão, ainda  quis escudar-se, apelando à  prudência, mas cedeu perante o sorriso sedutor da mulher.  Eis, pois, medo e prudência juntos.  E sem vitória, no caso.

O medo faz parte da vida animal. Medo uns dos outros: os fracos temem os mais fortes e estes receiam os seus iguais. Às vezes, até temos medo de nós próprios. O medo, entranha-se, incorpora-se, com objecto ou sem objecto. Segundo José Gil, em Portugal Hoje, O medo de Existir, é “companheiro de todos os instantes, doença que se agarra à pele do espírito e, por isso, não se vê, podendo-se mesmo não sentir como se em nós não estivesse inscrito.”

As religiões colocaram-nos no pensamento um medo para regular o nosso comportamento:  o inferno, com este ou outro nome. O poder civil – Estado – ao longo dos séculos deu-nos regras, impondo-nos comportamentos, querendo mesmo domar o nosso pensamento. A violação dos princípios definidos e impostos incorria, como implica, hoje, em democracia, numa pena.

Já tivemos medo do comunismo, do fascismo, do nazismo. Mas também receamos o patrão, que nos pode despedir, do vizinho que é uma «besta», de um marido/mulher insuportável. Temos medos  da prepotência, da arrogância, da insolência, dos falsos amigos,  enfim, temos medo de todos os «maus».

Albano Jerónimo, actor(cinema e telenovelas – vilão de “Nazaré, uma força da natureza”), em entrevista ao Expresso (14 de Março), dizia que  “os medos e os erros são os meus melhores amigos, porque me obrigam exatamente a mergulhar em terrenos e a ir para paisagens que desconheço. São plataformas de conhecimento. Abraço hoje o medo como algo inerente e vital à minha existência.”  Não sei se todos estaremos de acordo com o actor de “A Herdade” e agora na Netflix. Será o medo um amigo? 

Falemos de inimigo. Se nos submetemos a ele, devora-nos, mas se o olharmos de frente, olhos nos olhos,  como  se costuma  dizer, se o enfrentarmos, podemos vencê-lo. Há quem diga que não tem medo de nada. Isso deve chamar-se valentia?   Considerarmo-nos imaculados, faz de nós mais fortes ou, por outro lado, mais descuidados,  abrindo uma brecha que será aproveitada pelo  inimigo para nos infligir uma derrota? 

O medo, agora, afasta-nos uns dos outros, como se transportássemos lepra, que não nos deforma, mas que em poucos dias nos pode destruir. Não temos lança nem pistola – só os americanos compram armas em tempo de pandemia –  e o nosso escudo é frágil. Contra este inimigo não  podemos avançar de peito feito e voz grossa ou com grito de guerra  – nem por Santiago, nem por S. Jorge. Ele não é um mosquito, uma melga. Ele não é um. É biliões, nas mãos, no nariz, nos pulmões, onde acaba a sua missão, matando-nos. “Rais o parta.”

“O medo guarda a vinha” é ditado popular. Portanto, com as regras que  o momento  nos impõe, só temos que  guardar a nossa vinha. Não se aplica, hoje, o outro que diz “quem tem medo compra um cão”. Não, não pensem neste.

E fico-me por aqui, com esta crónica sem graça e que o momento me ditou. Afinal, o meu espelho disse-me, claramente, que há pessoas mais lindas do que eu, sem rugas, com cabelo farto, frescas com mais vida pela frente. Percebi que o melhor   é ter a coragem de andar com  medo ao colo, tratá-lo bem para poder continuar a sorrir amanhã.

Ribeiro Aires

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