O espetáculo da vulgaridade é agora permanente

Por: João Madureira

Passa-se o tempo a dizer “chega desta pouca vergonha”. E depois põem-se, os tais, a falar de bons costumes, de moral e de retidão. E a fazer, e a dizer, coisas inconcebíveis.

A verdade é que a história anterior à História está a manipular-nos. Os tiranossauros e os velocirraptores andam por aí disfarçados de estadistas. Os apóstolos apócrifos continuam a dizer e a desdizer aquilo que eles dizem que os outros disseram. É tudo um jogo de espelhos.

O poder e o Estado já não metem medo. O medo foi substituído pelo hábito e pela rotina.

As hierarquias estão a corromper-se. Nós somos sempre a terceira pessoa.

E a rasteira aí está: os que possuem antepassados irrelevantes são incentivados a alcançarem pensamentos relevantes.

Continua a resultar a tal experiência famosa de um psicólogo tocar a campainha e de o cão que a ouve, salivar. E não só o cão.

Já as gazelas não conseguem manter a cabeça completamente imóvel nem os olhos completamente parados.

Bem vistas as coisas, a preguiça é a mãe da inteligência.

Agora ensina-se História como se ela fosse uma espécie de ONG. Tudo tem enquadramento, tudo tem uma explicação. Tudo tem uma desculpa. E o que não tem desculpa, desculpado está. Não há culpados. Apenas vítimas. A História foi feita pelos tontos, todos eles movidos pela procura da paz, da honra e da santidade.

Já existem novas interpretações sobre a descoberta da América e também novas considerações sobre a revolução industrial. A nova história é um patíbulo onde se decapita a antiga.

Assim talvez tudo faça sentido, mas é um sentido tão arrevesado que mais parece não ter sentido nenhum. Talvez seja esse o sentido final das coisas.

A História acaba por ser um fantasma: algo de que se tem medo, mas em que ninguém acredita.

A verdade é que os historiadores são preguiçosos, gostam muito de dormir e não lhes apetece trabalhar para dizer algo que logo outros tratarão de desdizer. Por isso é que os historiadores gostam muito de apanhar sol. A verdade é que eles não têm culpa da História, apenas da sua interpretação.

Dizem que ser presidente faz sentido. Ser presidente de alguma coisa: da república, da assembleia, de um clube, de uma associação cultural ou recreativa, ou mesmo presidente da câmara.

Eu, ao que vejo, tenho de concordar. Agora já concordo com tudo. No fundo é tudo uma questão de argumento.

Antigamente os presidentes comiam bem, bebiam bem e até fumavam charutos enquanto tomavam um café com cheirinho. Agora alimentam-se com pratos saudáveis de peixe grelhado, legumes cozidos ao vapor, saladas frescas. E bebem água do luso. De sobremesa debicam uma peça de fruta biológica. E no fim ficam-se por um descafeinado com adoçante. Alguns, talvez os mais audaciosos, fumam de uns cachimbos eletrónicos que produzem nuvens cinzentas com cheiro a baunilha ou a frutos vermelhos.

Fazem sempre que se riem. Penso que, à sua maneira, são felizes. E trabalhadores.

Vítor Cunha Rego, nos bons tempos, escreveu que o Poder é sempre um obstáculo natural à informação, para concluir que a apatia é um inimigo ainda mais preocupante.

A verdade verdadinha é que os eruditos encartados de agora, quase todos eles assessores do poder, não passam de discípulos de Pangloss.

Mas uma coisa vos digo, que a aprendi do Malhadinhas: saber ler não basta para se ser fino, cavalheiro, ou dona, e muito menos para se ser feliz. Ler pode trazer muita infelicidade.

A verdade devia brilhar por si mesmo. Mas o que acaba sempre por brilhar é o dinheiro. A condição humana não precisa da verdade. A verdade é um conceito cultural. Um adorno moral.

Quando invoco a verdade, é frequente atirarem-me com o argumento de que falo nela, e a defendo, porque sou vaidoso. Há gente capaz de qualquer coisa.

Vivemos tempos indefinidos onde tudo se tornou banal, até a corrupção. A verdade parece querer fugir da realidade, mas fecharam-lhe a porta.

A gente honesta aparenta pertencer a uma ordem de frades mendicantes. Defender a verdade e a honestidade parece atualmente uma piada de mau gosto.

Talvez a corrupção seja uma espécie de transtorno obsessivo-compulsivo.

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