O efeito aperitivo

Sim, nós somos gente muito determinada e decidida. Desejamos sempre duas coisas ao mesmo tempo: ter uma profissão liberal e ser funcionário público; viver no campo e manter a casa na cidade; levar uma vida simples, mas sem renunciar a um certo e urbano conforto.

O sonho continua a ser o de viver no campo, apesar de vivermos na cidade, numa casinha com uma grande lareira, junto ao regato da floresta, longe do bulício e das pessoas indiscretas. Nem todos somos ricos, mas podemos viver com dignidade.

A verdade é que agora tudo é simpático, inofensivo, divertido, agradável e perfeitamente trivial. A pós-modernidade é mesmo assim: falar de carros, viagens, concertos, festivais gastronómicos, política, futebol e das alegrias dos fins de semana.

Agora já não se fazem partos, mas cesarianas.

Agora admiramos o caramanchão do jardim e sentamo-nos numa poltrona de orelhas a ouvir música clássica, mantendo acesa a chama dos subterfúgios. E quando vamos de férias para junto do mar gostamos de fotografar o voo acrobático das gaivotas. E também apreciamos filosofar com tiradas tipo: “Já todos sabemos que essa bonita coisa do progresso um dia vai correr mal. Mas, seja lá como for, a geringonça vai continuar a funcionar. Os nuestros hermanos bem que nos copiaram.”

Enquanto andamos sobre as dunas, ouvimos o leve marulhar das ondas.  Depois olhamos para setembro e dizemos que a sua luz costuma ser ambígua. Então o mar fica liso e começa a lamber a areia da praia.

De facto, até nos podemos dar ao luxo de ouvir a música de Wagner e achar que ela é grandiloquente e mesmo intimidatória, estremecendo nos assentos por culpa do som das trompas e das trombetas.

Claro que o bulício e as multidões citadinas acabam por nos aturdir, mas sempre é melhor do que andar na montanha-russa. Por vezes também é avisado visitar espíritas para nos fazerem a carta astral. Sempre é melhor do que pedirmos a uma cigana para nos ler a sina. Os tempos são outros.

Paris e a sua vida libertina ainda faz parte do nosso imaginário. E Sartre. E o existencialismo. E Che Guevara. Até usamos a sua t-shirt quando vamos de férias para Varadero. E rumba que rumba e torna a rumbar. Que caliente. E um mojito na Bodega del Medio ainda nos traz à memória Ernest Hemiguway e o Velho e o Mar.

Apesar de tudo, continuamos simples e sentimentais. A imagem de um pardalito molhado e frágil ainda nos comove até às lágrimas. Por vezes sentimo-nos assim perante a grandeza do mundo.

E a História, nos seus pormenores grotescos, não deixa de nos surpreender para também nós surpreendermos os outros com as suas pitadas de ironia. Então não é que na Roma antiga a procura de criados anões era tanta que alguns pais fechavam os seus filhos para os impedirem de crescer e dessa forma conseguirem que os nobres os contratassem para servirem em sua casa. Curioso, não é? Dizem que até possuíam uma língua própria para que a concorrência não pudesse compreender as suas conversas. É possível que esta mesma língua fosse utilizada, nessa mesma época, no Egipto, entre os anões que ocupavam altos cargos nas cortes dos faraós e também entre os humildes pigmeus que viviam nas margens do Nilo, cujo aspeto e hábitos foram descritos por Aristóteles e Plínio. Dizem que essa língua chegou mais tarde ao Centro da Europa onde recebeu o nome de Geheimnissprache der kleinen Leute.

Quem bom está este gin Nordés!

A Bolsa continua em baixa. Dias melhores virão. Não há bem que sempre dure e mal que nunca acabe. Menos nuvens, mais claridade.

Nuvens leves como penas de pato desenham linhas finas no céu azul-celeste. A relva do jardim brilha no seu peculiar tom de verde. Ouve-se então o leve restolhar das folhas das árvores que se transforma depois num sussurro e depois numa canção. Inquietação… inquietação… é só inquietação… Que bom está o gin tónico. Ingerir álcool provoca fome, o que nos leva a querer consumir mais e depois a ter mais fome…

Mark Forsyth explica que “nós evoluímos para beber”. Por isso é que beber tanto é tão revolucionário como burguês. Que bom está este mojito.

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