Por vezes receio as novidades e certas mudanças. Quem diria! eu que me atiro para a frente ousadamente, sem pensar muito, sempre um pouco indiferente a criticas e ao bom senso, privilegiando a criatividade e a inovação, porém, a maturidade tem-me beneficiado na reflexão, evitando que alinhe em certas euforias que podem ter a sua faceta duvidosa.
Escrevo aqui junto ao teatro, na margem esquerda, ergo o olhar e vejo o perfil da cidade. Os edifícios do Pioledo rasgam a montanha que se localiza, no plano infinito menos um, na charneira entre o Marão e o Alvão. Há mudanças e novidades que saem caro aos cidadãos da época e aos outros que se seguirão e nunca mais se poderá iludir a melodia do olhar. Que certezas tinham as cabeças pensadoras que tomaram aquela decisão há mais de 3 décadas, implantando um edifício na parte alta da cidade, ultrapassando em muito a altura da torre da Igreja do Calvário e o resto do perfil urbano? Julgariam construir um Parthénon, ou algo arquitectonicamente simbólico que justificasse a sua escala e a sua ruptura com a horizontalidade do sítio? Já se debateu, criticou e escreveu tanto sobre isto! Resultou algo denominado pelos arquitectos de “bolo de camadas de chocolate da pastelaria da esquina”, do pior que já se fez nesta cidade, e como não bastava uma asneira, consolidou-se a dita asneira, com outro edifício ao lado. Este é um bom motivo para reflexão, porque também não sou a favor do faz e desfaz, do constrói e do deita abaixo, mas que pelo menos sirva de exemplo para travar novas alucinações que se aproximam.
Estou aqui a reflectir na margem esquerda, entre um café e um covilhete. Fico sempre apreensiva quando descubro que um templo cristão foi construído sobre um templo romano, ou que um altar barroco destruiu uma parede com frescos, ou que um banco moderno substituiu um café de arte nova. A espiral do progresso tem estes constrangimentos que, normalmente, passada a euforia “progressista” dos que detêm o poder e o dinheiro, o produto da verdadeira contabilidade civilizacional dilui-se num saldo muito negativo e na maioria dos casos, irreversível.
Perdemos todos.
Gosto sempre de regressar a Conimbriga, ao templo de Diana, à Muralha Fernandina, ao Magestic, ao Castelo de Leiria, ao Convento do Carmo e sentir que continuam iguais a si mesmos, como testemunhos da história e da vivência humana e que respeitamos o compromisso assumido para com as próximas gerações. Também elas apreciarão voltar, iludir o olhar, regressar ao passado através da arquitectura e conhecer um pouco mais de si mesmas, para enfrentar o futuro.
Não me agrada alterar a história e destruir memórias. Esta forma de estar na vida não faz de mim uma retrógrada, antes pelo contrário. Tenho consciência que não há futuro sem passado. Para mim o que está bem, deixa-se estar e o que falta, faz-se de novo, noutro lugar e aí sim, arrisque-se tudo, venha de lá a ousadia, a modernidade, a inspiração, o sonho e a invulgaridade.
É tão simples a vida, nós é que a complicamos.

Anabela Quelhas