Das entrevistas dadas pelos ex-presidentes da República ao Expresso, a de Cavaco Silva foi a pior. E também a melhor. A pior porque evidenciou a sua personalidade egocêntrica e mesquinha. E a melhor porque revelou o seu carácter reacionário, presunçoso e definitivamente medíocre.

Ele, um dos primeiros-ministros que mais contribuiu para o foguetório e o esbanjamento dos fundos comunitários, diz que não se ilude com os números do crescimento porque, na sua douta opinião de homem de pau (carunchoso), Portugal cresce menos do que os outros países da UE, mesmo num quadro de benesses externas.

Revela que não alinha nos foguetes de cada vez que sai um número do INE. De facto, o sr. Cavaco, quando os números são positivos, deve ter uma contração do estômago, deve ranger (ou esterrincar, como se diz na minha aldeia) os dentes e largar uma flatulência que não deve cheirar propriamente a rosas.

O azedume é mais forte do que a razão. Diz que é um homem de sorte. Talvez até seja, mas, na minha humilde opinião, a sua sorte foi sempre o nosso azar.

Elogiou Macron, Rui Rio, Passos e António Costa (e lá vai canelada), “um político muito hábil”.

Todos percebemos que o elogio ao atual primeiro-ministro não é elogio nenhum. O sr. Cavaco não quer dizer que a habilidade de António Costa é benigna, pois utilizou o adjetivo como querendo significar que é um homem tortuoso, que sabe manipular as pessoas e os meios de informação. Não o quer definir como apto, capaz ou ágil, mas sim como astuto.

Pensando bem, talvez diga António Costa, querendo designar Marcelo Rebelo de Sousa, de quem tem uma inveja imensa, disfarçada de indiferença.

Foi ele que, num dado momento, querendo referir-se a um seu companheiro de partido, afirmou que a má moeda vence a boa moeda. Eu até concordo com o dito, pois foi essa “força maior” a que lhe permitiu triunfar no partido, no governo e na presidência do país.

O sr. Cavaco foi um atraso de vida.

Na sua perspetiva de ave agoirenta, o sr. Cavaco considera que devemos corrigir os nossos desequilíbrios estruturais como forma de preparar o futuro. A saber: o enorme endividamento do país (que ele potencializou); a insustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde (que ele dinamitou de forma tortuosa); a baixíssima taxa de poupança das famílias, que está a um nível historicamente baixo (ó sr. Cavaco, como é que alguém pode poupar se nem dinheiro tem para chegar ao fim do mês? Não se deve esquecer que “o seu menino bonito”, Pedro Passos Coelho, cortou nos vencimentos da classe média de uma forma escandalosa).

A simples ideia da reestruturação da dívida provoca-lhe pesadelos, por isso é frontalmente contra, pois podia levar os bancos portugueses à falência, o que seria uma situação dramática para o nosso sistema financeiro. O problema é que os bancos foram mesmo à falência e o sr. Cavaco nem disso se apercebeu. Além de termos de pagar a enorme dívida, atualmente também nos toca pagar a recapitalização e o financiamento do setor bancário.

Agora deu-lhe para citar várias vezes Emmanuel Macron. Diz que ganhou interesse pelo presidente francês ao ler o jornal que lhe chega diariamente, o Le Monde, e uma revista semanal, a L’Express.

Começou a ler os discursos do presidente francês e a sublinhar determinadas frases e encontrou algumas semelhantes às suas, escritas nas Memórias. Ou seja, em vez de ser Cavaco a ler Macron, afinal foi Macron que leu Cavaco e se aproveitou das suas ideias.

Cá para mim, o homem não se enxerga.

E citou-o: “Enquanto presidente, não podemos ter o desejo de ser amados, o importante é servir o país e levá-lo para a frente”.

Cá para nós que ninguém nos ouve, o sr. Cavaco aproveita as palavras de Macron para criticar o presidente Marcelo.

Segunda citação e mais uma alfinetada em Marcelo: “Estou a pôr fim à cumplicidade entre a política e os media.”

E ainda outra, esta direta ao Estadista dos Afetos: “Para um presidente, falar constantemente com os jornalistas, não tem nada que ver com proximidade com o povo” (ai não que não tem, o sr. Cavaco morde-se de inveja).

E ainda mais alguns dardos apontados e Marcelo: “A proximidade entre jornalistas e políticos é negativa para os jornalistas e para os políticos.”

Em relação à questão do posicionamento de Macron entre a direita e a esquerda é ladino: “Nem de direita nem de esquerda, porque de direita e de esquerda”.

O sr. Cavaco, nem a mão esquerda tem à esquerda.

Perguntaram-lhe a sua opinião sobre o exercício de funções do atual presidente Marcelo Rebelo de Sousa. Cito a resposta, que é uma aldrabice pegada: “Tomei por princípio não fazer comentários nem sobre os meus antecessores nem sobre quem me sucede”.

Em duas coisas admito que tem razão: na nossa democracia notamos um afastamento crescente das elites profissionais, dos quadros técnicos qualificados, em relação à participação política e o sistema eleitoral dá um peso excessivo aos partidos, em comparação com o que dá às pessoas.

A autocrítica fica-lhe bem. Pena é que tenha vindo tão tarde e a tão má hora.