O bom povo português

Por: João Madureira

O bom povo português é resistente. 

É resistente à fome e ao frio, à miséria, à ausência. E também às letras e aos números. 

Pela boca dos estrangeiros sabemos que o bom povo português é rude, pobre, perdurável, nobre, metido em si e duro de roer. E que outrora teve a ousadia, e a coragem, de ir até ao Japão e dar a volta ao mundo. E depois de o império acabar, regressar ao seu canto e continuar a viver com dignidade. 

O povo português sabe ouvir, sabe escutar os outros. Com isso aprende o essencial. E sem abrir um livro. 

Em Portugal tudo se compra: a adulação, o elogio indispensável à vida pública, o emprego, os prémios culturais, incluindo os literários, as garantias para os empréstimos, os currículos. E até algumas amizades. 

Aos novos ricos agora deu-lhes para comprar terrinas e penicos antigos de louça. É o resumo artístico da sua identidade. O seu patriotismo é um pouco ressentido porque assenta no amor ao lucro rápido. 

O bom povo português pode ser intrinsecamente descontente. Mas nunca comete a indelicadeza do desespero. Desesperar jamais. 

O bom povo transmontano gosta sempre de pôr os seus hóspedes à vontade dizendo que dentro, na despensa, há mais daquilo que tem a bondade de colocar na mesa. 

Os portugueses, todos eles sem exceção, não fazem distinção entre as dores ciáticas e as dores da alma. Muitos passaram diretamente do servilismo para a resignação. Por vezes confundem o sofrimento com a vontade de viver. Vivem fascinados pelo destino. Acreditam no nevoeiro redentor e no regresso de reis imberbes. Deviam perceber que o destino apenas os ofende. 

Portugal é uma terra propícia ao messianismo. Essa simbolização é intrinsecamente afetiva. 

Por vezes, Portugal parece um país de lunáticos em autogestão. Daí a nossa ineficácia ser tão evidente. Gostamos de fazer do outro um adversário. 

E não gosta de ler, ele, esse tal luso depauperado, talvez porque tamanho ato lhe esgota a bílis. Isso, apesar do nosso Nobel ter escrito livros extraordinariamente biliosos. 

Vá para onde vá, Lisboa, Paris ou Nova Iorque, o português leva sempre consigo a província. Foi o que fez António Variações com a qualidade e o génio que se lhe reconhece. E foi por ser provinciano que transformou o fado em música pop. Honra lhe seja feita.  

Ao povo, custa-lhe a aprender que as ideias que agradam imediatamente não são as mais justas. Por isso peca. Depois confessa-se. Acredita no perdão.

Metade dos lusos recorrem a bruxas e zangões. 

Vivemos na era dos cómicos. Mas ninguém se diverte. Apenas sorrimos como se fôssemos parvos. A corte republicana é composta por sátiros. 

A fartura faz com que as cidades se encham de lixo. 

A verdade é que quando nos cansamos da utopia voltamos à realidade. E quando nos fartamos da realidade quase voltamos à utopia. A perceção das coisas coloca-nos sempre algumas questões: porque será que desenhamos um boi abaixo da sua dimensão e uma formiga em tamanho grande? 

Suportar e sofrer são coisas bem distintas. Os lamentos são tão cadenciados que até doem.

Os portugueses apreciam Job e a sua obediência cativa. 

Mas também possuem, os portugueses, uma sabedoria muito própria baseada em alguma densidade, muita antiguidade e um pouco de autoridade partilhada. 

Os portugueses são uma espécie de empregados obedientes lá fora e hóspedes no seu próprio país. 

Mas são gente boa. E porquê? Pois pelo óbvio. Qual óbvio? Faz parte do teorema. Pode demonstrar aquilo que diz? As coisas óbvias são sempre as mais difíceis de demonstrar. 

Até os grandes rios nascem de pequenas fontes. 

Os jovens que antecederam a minha geração eram mais pobres do que nós, menos livres do que nós e menos instruídos do que nós. O meu medo é que a situação se inverta. 

Voam sobre nós metáforas de realidade. A realidade não necessita de excesso de zelo.

Como diz o caseiro da Torre de Barbela: “Isto uma vez visto, está visto.” Ou então, ou “se vê logo, ou demora uma boa meia hora a tirar o sumo”. Ou seja, Portugal tem as mesmas vistas e o mesmo encanto. 

A verdade é que, vistos daqui, tanto o Brunheiro, como o Larouco ou o Marão, deitam faúlhas contra o céu que só visto. Aqui as montanhas discutem. Mas de forma pachorrenta. Já os romeiros costumam queixar-se do reumático.

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