O antes e o depois… o futuro começa daqui a pouco

Começámos por ser espectadores de um estranho fenómeno em ecrã da televisão ou em linhas de jornais, à distância de continentes; mas rápida foi a perceção de que, afinal, globalização não é apenas aquilo a que já nos habituáramos – podermos comprar num mercado perto da nossa casa bananas colhidas, na véspera, na Costa Rica. A globalização fez com que, num repente, todos e cada um de nós, milhões de pessoas, vissem a sua vida virada do avesso e com marca funda.

Estamos perante um fenómeno multi-efeito cuja total dimensão talvez ainda nem consigamos abarcar, mas que caminha já para uma crise em termos dos seus efeitos económicos. No nosso país são já assinaláveis os impactos na quebra no produto, no desemprego, nas exportações. De repente, uma economia que respirava saúde foi alvo de paralisia aguda. Dizia há dias o senhor Ministro das Finanças que irão ser precisos mais de 2 anos para voltarmos ao que éramos.

Conhecíamos o “antes”, mas não sabemos ainda o que será o “depois” da pandemia. Suspeitamos, contudo, que estaremos perante um novo ciclo civilizacional, porque percebemos bem que o nosso modelo de desenvolvimento se encontra esgotado. Um outro terá de lhe dar lugar, com novos contornos e integrando novas variáveis, novos valores, novos comportamentos e novas soluções tecnológicas.

Teremos à frente um percurso que, com toda a probabilidade, não será linear, na procura de ajustamentos e de novas perspetivas que obrigarão a avanços e recuos.

 A busca de novas estratégias impõe amplas discussões, partilhadas com todos os diferentes agentes e atores, privados e públicos.

Será necessário reinventar.

E será necessário promover grande participação na discussão dessa reinvenção e privilegiar soluções de proximidade. Não poderemos – não deveremos – delinear a arquitetura de novo modelo através de decreto do Conselho de Ministros…

Nesse contexto e face às especificidades de diferentes regiões, múltiplas são as incertezas que se colocam já na linha do horizonte.

Contudo, temos desde já o conforto de umas semanas em que, no meio da perplexidade com todos os acontecimentos, foi dinâmico e mobilizador o ajustamento verificado na nossa sociedade. O ensino à distância é disso um bom exemplo e poderá estar a abrir caminho para outras profundas alterações nessa matéria.

Esta pandemia veio igualmente tornar mais visível alguns aspetos do Portugal profundo, expondo, em diversos sectores, algumas das suas fragilidades.

É o caso dos lares de idosos e casas de repouso, locais onde a fragilidade é sinónimo de dia-a-dia mas onde, em simultâneo, tem vindo a ser demonstrada uma efetiva capacidade de resposta por parte de todos os atores na luta contra a propagação do vírus. Dou, a este propósito, o exemplo do Lar de Vila Real onde, com a ajuda de técnicos muito experientes e com uma intervenção muito coesa por parte de toda a equipa, foi possível travar o processo de contágio – mesmo assim, e infelizmente, com a perda de vidas.

Estamos, pois, a dar um sinal muito claro da nossa capacidade de ajustamento.

Impõem-se, agora, reflexões profundas quanto ao futuro enquanto, em termos mais imediatos, preparamos um período de reanimação da atividade económica e social e de retoma de alguma normalidade na nossa vivência, mesmo que pautada por diferentes regras e condicionalismos.

Foi com esperança no futuro que li o documento “A  European Roadmap”, assinado pela Presidente da Comissão Europeia e pelo Presidente do Conselho Europeu, estabelecendo indicações e normas visando a saída deste estado de confinamento económico e social com mais sucesso e, principalmente, mais solidários e fortes.

Como diz o povo “não há mal que sempre dure nem bem que não se acabe”. Por isso, há que pormos mãos à obra…. Temos um futuro para construir!

Ricardo Magalhães

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