Missão: exterminação implacável dos velhos

Por: Joaquim Ribeiro Aires

Este vírus maldito veio com uma missão: exterminar os velhos. O processo começou na China. Irradiou para a Europa, onde os velhos são aos montes e  a despesa com eles, em reformas/aposentações, atinge valores  muito elevados. E o safado do vírus disfarça muito bem. Incomoda os de meia-idade, mas as dentadas nos velhos sabem-lhe melhor. Entrega-lhes  um bilhete de ida para as poeiras cósmicas das galáxias longínquas. Mas a sua alegria é nervosa, porque, em Portugal, há uns  sujeitos a estragar-lhe os planos. Vestem-se como astronautas e salvam muitos dos que ele queria matar. Ele é o «exterminador implacável» que, neste «contágio»,  traz a morte a uma «velocidade furiosa». No «meio da tempestade», agora,  já o humilham: há mais recuperados que infectados. “Não perdem pela demora”, rosna.  Cisma que se o amofinarem muito, virá com mais força no próximo outono e inverno. Fará como familiares seus de outras eras.  Ele conhece a História das epidemias e pandemias. Não ficará contente consigo próprio se a ceifa, na Humanidade, não for na ordem dos milhões.  

Os velhos. É nos velhos, pois que tem de centrar-se.  “Aumentaram a «esperança de vida», colocaram-na próxima dos oitenta anos? Se  os humanos não a baixam, ele fará o seu papel.  Ainda pensam na longevidade além dos 90 ou 100 anos! Pois… pois, hão-de ver como vai ser!”.

Ai, humanos! Ai humanos!  Querem os velhos por cá, para quê? Só dão despesa e cuidados.  Muitos dizem que os avós fazem falta aos netos e estes àqueles. Pois, pois. Por isso, é que se questionam: devemos fechar os velhos em casa, para que não sejam corrompidos com as hastes da minha coroa? Não se hão-de ficar a rir, dianhos!

 Exploremos, então, este campo minado: os velhos.  “ Há uma estigmatização do velho, que é culpado de querer viver. Quer-se impor uma eutanásia forçada, não por decisão própria, mas por pressão dos outros”, escreveu o escritor Valter Hugo Mãe (Expresso, 10 de Abril), que não vai nesta nave que quer ostracizar os velhos. Angel Merkel disse que não se pode dar  toda a liberdade aos mais jovens e tirá-la aos mais velhos.  Maria Manuel Mota, cientista que recebeu o Prémio Pessoa, não concorda, porque se for um modo de os proteger devem estar confinados ( Revista Expresso, 18 de Abril).  Henrique Raposo (Expresso, 25 de Abril)  prefere a liberdade ao confinamento: “viver em liberdade tem sempre riscos. (…) Entre viver com o fantasma de ter sido eu o foco de infeção da minha mãe  e uma vida interrompida que atira a minha mãe para um final de vida soturno, eu prefiro a primeira hipótese. (…) Eu aceito a morte natural da minha gente às mãos da covid-19).”  O general Ramalho Eanes, em entrevista televisiva, disse:  “Nós, os velhos, vamos dar o exemplo. Não saímos de casa, respeitamos os conselhos médicos e, se necessário, chegamos ao hospital e oferecemos o ventilador ao homem que tem mulher e filhos”. Lindo! Muitos bateram palmas por tanta generosidade e tanto desprendimento. Quem o fez, provavelmente, não tem 85 anos, como o ex-Presidente da República. E que digo eu? Simplesmente, estou em desacordo. Como “velhos são os trapos”, não me ofereço à eutanásia, por quem não conheço. Que cada um morra no seu lugar e no seu tempo próprio. Cada um sabe a falta que faz e cada um sabe o que ainda pode fazer na vida.  Não quero que o meu epitáfio diga “ vítima da covid-19.”

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