Mas que dias estes!

Por: Ribeiro Aires

Gostava de, agora, escrever coisas belas no meio da chuva, mesmo quando ela não é de bênção.  Sabem o que é  olhar para a vida e dizer que ela não é bela, sentir que ela pode ser mais curta do que era previsto só porque um mal maior se instalou entre nós?  Sabem, pois. Exceptuando os marrecos irresponsáveis, nesta angústia colectiva somos todos irmãos. Vogamos todos no mesmo  titanic, não é? Caramba! O que nos havia de acontecer?

Mas que dias estes que nos calharam na rifa de 2020. E nós a julgar, na feliz festa de arrebenta do último Ano Novo, que, fizesse sol ou caísse chuva, teríamos connosco bons augúrios tão bela parecia ser a cara deste ano. Eis senão quando, para contrariar a esperança de um ano feliz, uma tempestade varreu de nós o otimismo  e nos lançou num beco frio, húmido, nojento, onde há ratos e cobras, baratas, percevejos e toda  a raça de bicharada imunda. De olhos assustados, sem lampejo de sorriso, não sabemos o que havemos de fazer. Lutamos contra as sombras e nas sombras procuramos o invisível que nos domina e nos aterroriza. Desembainhamos a espada e não conseguimos rasgar-lhe as «carnes».

Mas que dias estes!

Andamos meio tontos. Enjoamos cada dia que nasce, marcados pelo “trumpismo”, pelo crescente número de infectados pela covid, pelo número crescente de mortos, pelo relato contínuo da ruptura do sistema de saúde, pelo apertar de medidas sanitárias, pelo estado de emergência, pela diabolização esquerdista dos serviços  hospitalares do sector privado.

Dias loucos!

Talvez  estejamos nós a ficar loucos e não os dias, porque não sabemos bem como nos orientarmos, nem para que lado nos havemos de virar, tão grande é a ameaça que sobre nós pende. Todos os dias a morte  mina as nossas horas, tira-nos a boa disposição, dá-nos a beber o medo. E se formos apanhados na rede, quais peixes no mar ou no rio?  Ou se formos «pescados» à linha?   Onde iremos nós parar? A que frigideira ou a que assador? A que  maca num pestilento corredor de hospital? 

Parece que regressamos aos séculos negros das pandemias medievais  e de outros séculos seguintes, mesmo há cem anos: tifo, sarampo, escarlatina, tétano, garrotilho, tuberculose, cólera, varíola…  Então diziam os sociólogos que a morte estava no centro da vida, como a igreja estava no centro da aldeia.

Mas que dias estes!

Dias em que as nossas conversas, como os escritos,  caem sempre neste mal que nos aflige pintando-nos a esperança com a cor da icterícia.

Que dias estes!

Dias em que 12 milhões de consultas presenciais e intervenções cirúrgicas foram adiadas.

Que dias estes!

Dias em que são necessários mais 478 médicos, 3991 enfermeiros, 1342 técnicos e 471 camas e que não há impressora 3D que resolva esta necessidade.

Mas que dias estes em que há mais jovens a serem internados e usarem mais tempo as camas, porque são menos os que morrem, podendo expulsar daqueles locais os velhos para morrerem como tordos antes do Natal.

Mas que  dias estes em que morrem mais de 300 pessoas a cada 24 horas por doenças diversas, entre elas as oncológicas, sem que nas televisões, nos gráficos haja uma só referência a elas. Morrer de cancro da mama, do fígado, do pâncreas, do estômago, da próstata  é coisa normalíssima, logo… Ah! Maldito vírus que tomou conta de nós, da nossa inteligência e da nossa sanidade!

Mas que dias estes, em que o diabo, afinal, era outro, melhor, este!  Quem deixou fugir da caixa de Pandora este filha da mãe?

Mas que dias estes em que há normas, mais normas, às vezes zangadas entre si. Mas que dias estes em que aos fins de semana vamos ter de dormir uma longa sesta, porque a covid nos fecha as estradas,  as ruas e não permite que, em fim de semana, se almoce em restaurante depois das treze!

Mas que dias estes em que o Chega ganha deputados nos Açores e o PSD, na ânsia de ser poder, aceita comer as larvas  que deslizam do prato de André Ventura!

Contudo, no meio das amarguras, das dores, das incertezas, dos medos, da tragica morte, o mundo, ainda que de máscara, ficou livre  de um atrasado mental a abanar diariamente a melena dourada. Escafede-te, Trump. Viva Joe Biden.

Anotem, também: neste nevoeiro,  há um sol que brilha em Portugal, acompanhado pelo canto verde de Maria José Valério. É que o Sporting vai à frente no campeonato! Perdeu a Europa, mas está a ganhar Portugal.

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