Mais Europa

Por: Fontainhas Fernandes*

Num momento em que a Europa atravessa um dos seus momentos mais difíceis, no passado dia 9 assinalou-se o Dia da Europa, proclamada por Schuman há 70 anos. Tal como há 70 anos, hoje, mais do que nunca, reclama-se solidariedade entre os estados membros na afirmação do projeto europeu.

Num novo milénio, pautado pelas modernas tecnologias digitais da dita quarta revolução industrial, inesperadamente e pouco preparado, o mundo confronta-se com novos desafios à escala planetária, como a sustentabilidade ambiental e a economia circular, as alterações climáticas e, agora, o renascer das pandemias como a COVID-19.

Os novos desafios não conhecem fronteiras, como esta pande­mia está a demonstrar. Como tal, esta crise global exige soluções alargadas e convergentes que tenham como base a ideia de uma Europa unida. Esta é uma das principais linhas orientadoras lançadas pela Plataforma de Cidadania “Nossa Europa”, fundada por elementos de diversos quadrantes políticos, que ambiciona construir um novo espaço de debate sobre o futuro da integração e de aprofundamento da integração política, social e económica.

Torna-se difícil prever a dimensão da crise económica que resultará do blo­queio das nossas economias, mas é desejável que a Europa esteja à altura da crise que se perspetiva. Ao contrário do acontecido em Itália na fase inicial da pandemia, marcado por falta de solidariedade, no futuro espera-se mais coordenação, mais cooperação, mais soluções coletivas na defesa do emprego, das empresas, mantendo as cadeias de produção e o valor acrescentado de sectores estratégicos. Obviamente que não são encorajadores sinais de intenção de abertura assimétrica das fronteiras na UE por parte de alguns países, como é o caso da Áustria, para o turismo.

Para Portugal, é importante confirmar que os fundos comunitários, que ainda estão por executar, possam ser utilizados em plenitude, sem comparticipação nacional. Mas, seria igualmente determinante que o Governo direcionasse fundos para projetos de resposta à crise da COVID-19, diminuindo a intensidade na aposta em projetos de infraestruturas em grandes centros urbanos, de resultados económico-sociais duvidosos, no cenário atual.

Desta crise, teremos de retirar outro tipo de ilações, como a possibilidade de reduzir as emissões e proteger o planeta e a capacidade da sociedade se adaptar ao uso de ferramentas digitais. Ficou claro nesta crise, que os meios digitais ajudam na resolução de questões técnicas, mas há também um manto de questões sociais, laborais, de equidade social e intergeracional que é necessário reequacionar e solucionar.

Hoje, mais do que nunca, comprova-se que é fundamental apostar na digitalização e nas modernas tecnologias, mas nunca descurando as pessoas, ou seja, a equidade social e territorial, a cultura e o relacionamento social. Uma sociedade moderna, democrática e desenvolvida engloba o digital e muito mais.

Por tudo isto, a ciência, o conhecimento e a inovação são vitais para dar resposta aos modernos desafios societais.

Nesta nova fase, deve estar na primeira linha a recuperação económica e social, tendo sempre em mente a evolução intergeracional. E isto não se consegue sem a aposta num sistema de ensino e ciência forte, dinâmico, equitativo e distribuído pelo país.

*Reitor da UTAD

Partilhar:

Outros artigos:

Menu