Lembram-se do guichet?

Caseiro Marques

Noutros tempos, o guichet era uma instituição. Íamos a qualquer repartição e o guichet lá estava à nossa espera. E muitas vezes as nossas conversas andavam à volta do que se passava junto do guichet. Fora ou da parte de dentro do guichet: “Cheguei ao guichet”; “Estava no guichet”; “Falei para o guichet”; Atrás do guichet estava um antipático!”; “Estava lá uma simpática atrás do guichet!”; “Se não fosse o guichet partia aquilo tudo!”; “Se não era o guichet ia-lhe às trombas!”; “Havia lá um guichet muito bonito!”; ou “O guichet estava todo sujo!”.

Havia guichet para todos os gostos. Uns eram altos, até ao texto. Outros tinham apenas um buraco redondo, junto ao tampo do balcão de atendimento. Também podiam apresentar uns buracos mais pequenos, a meia altura, para permitirem a comunicação entre o trabalhador e o cliente. Podiam ser em vidro ou em plástico. Havia guichês enormes e outros apenas servidos por um vidro de meio metro de altura. Vi muitos guichês artísticos, dignos de serem contemplados. Alguns tinham grades em metal. Outros eram mexerucos.

Mas o que gostava de apreciar mais era o que se passava ao guichet. Havia pessoas que se agachavam diante do guichet tentando falar pelo orifício por onde passavam os documentos ou as notas, no caso de se tratar de um banco ou dos CTT. Os clientes pensavam que por ali existir um vidro a separá-los os funcionários não os ouviam. Então, baixavam-se e ficavam com o rabo estendido pela sala. Outros falavam muito alto, pensando que assim se fariam ouvir melhor.

Os guichês desapareceram quando o serviço público e não só, se democratizou e se entendeu que os clientes deveriam ser atendidos de forma mais personalizada. Cara a cara, como mandam as regras da boa educação cívica. Só que o guichet tinha várias funções. Nuns casos, servia de protecção contra assaltos, no caso dos bancos e outras instituições que lidavam com dinheiro. Mas estes e todos os outros também tinham uma função de protecção contra a aspersão de gotículas de saliva, vulgarmente designadas, naquela altura, por “perdigotos”.

E assim se prevenia, naqueles tempos, a propagação de doenças.

Estou a escrever sobre este assunto, porque me parece que o guichet vai regressar em força. É preciso vir um vírus da China para mudarmos tantos dos nossos hábitos, por sorte ou azar nosso, alguns bem desprezáveis ou pelo menos desnecessários e até prejudiciais à nossa saúde.

Costumo dizer, quando alguém começa a profetizar tragédias e calamidades futuras, devido ao comportamento dos humanos em geral ou de alguns a em particular, que o mundo dá muitas voltas. Mais tarde ou mais cedo acabam por acontecer coisas que nos obrigam a mudar os nossos hábitos e a trocar comportamentos menos próprios por outros mais consentâneos com o nossos viver em sociedade e respeitando os outros e a obra da criação, da qual nos servimos e que temos obrigação de preservar, defender e agradecer por podermos dela usufruir. Estas calamidades não são um castigo de Deus, como se dizia antigamente. É a natureza, criada por Deus, para os que acreditam, a repor a ordem natural nas coisas que dizem respeito ao Universo e em quanto nos rodeia.

2 – Eu apresentei a sugestão, a alguém, aqui, na diocese de Vila Real, de os sacerdotes terem as píxides fechadas enquanto celebram, para evitar a contaminação das partículas, por efeito de gotículas de saliva que possam ser expelidas na sua direcção. Ficarão igualmente consagradas.

Também sugeri que os sacerdotes tomem mais preocupações, como todos procuramos e devemos fazer, quando tossem e espirram durante a celebração. Alguns não tomam essa precaução.

E, finalmente, sugeri que os sacerdotes que celebram ou concelebram e os diáconos, passem a fazer libações, tal como os ministros da comunhão imediatamente antes de distribuírem a comunhão. Eles têm de pegar em diversos objectos durante  a celebração que podem estar contaminados.

Vamos ver o que se decide. Mas todo o cuidado é pouco. E Deus, Nosso Senhor, não se importa. Muito menos Jesus, presente na hóstia consagrada. Ele não quer ser, com toda a certeza, veículo de doenças para os cristãos. Apenas quer a nossa salvação.

Queira Deus que ninguém fique escandalizado com estas minhas sugestões, como aquele que quando o sacerdote lhe disse que não podia continuar a comungar com a hóstia depositada na boca, respondeu que, então, não queria comungar. E como o outro que concordou que deixassem de ser celebradas as eucarísticas, mas não que deixassem de efectuar a procissão do enterro.

3 – De que se está à espera para nos fecharmos todos. Todos – todos mesmo – em casa, durante quinze dias?

Por: António Francisco Caseiro Marques

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