Água fria, da ribeira,
Água fria que o sol aqueceu,
Velha aldeia, traga a ideia,
Roupa branca que a gente estendeu.
– Então prima, muita roupa para lavar?
– Se tenho!
– Brr!Qu’ a água está mesmo gelada!
– E como querias qu’ estivesse se estamos em Janeiro.
As primas Fernanda e Ana , acabadas de chegar ao Rio das Lavadeiras, na Levada do Padre João, começavam a tirar a roupa dos cesto, colocando-a no chão, para melhor escolher quais as primeiras peças a lavar,
Três corpetes, um avental,
Sete fronhas, um lençol,
Três camisas do enxoval,
Que a freguesa deu ao rol.)
Ouviu-se na voz fina de Ana.
– Bem carregada vieste, prima Ana – interrompeu-a Fernanda.
– Se vim. Até me dói o pescoço.
-Quem é que guarda em casa assim tanta roupa? Só pode ser homem sem mulher.
– Bruxa .
– Deixa-me adivinhar é do Santa Ana. – Fernanda com o olhar aquiesceu – – C’um catano! Se os meus olhos não me enganam, há aí muita roupa velha, encardida. Até daqui lhe sinto o mau cheiro. Alguma parece que já andou no cu de Judas.
– Cala-te, prima. Pelo que vejo, não deves ter coisa melhor. Tens aí trapos que cheguem para gastares uma boa barra de sabão e muito tempo a corar. Parecem-me roupas ressequidas.
– O que é seco, molha-se. Para que serve o rio? Agora essa trapalhada dá ideia de podridão! Olha que o que é podre já não tem remédio.
– Trapalhada? Podridão? Não digas disparates. Preconceitos teus. Conheces o homem e agora desdenhas. Já agora, posso saber quem te encomendou o serviço.
– Maria do Rio, filha. Maria do Rio.
– E é toda do marido dela? Tinha de ser.
– Tinha de ser, porquê?
– Pura coincidência. Não é que ambos vão participar numa corrida… que só um pode ganhar?
– E que corrida é essa?
– Poleiro, prima. Poleiro.
– Pois. Ah! E querem ir bem lavadinhos, asseados, cheirosos, a fazerem charme para convencerem tolos.
– Mas não há outros. Ó prima e se começássemos a lavar esta roupa suja.
– Vamos lá.
E Ana voltou à cantoria, que Fernanda acompanhou.
Ai rio não te queixes,
Ai o sabão não mata,
Ai até lava os peixes,
Ai põe-nos cor de prata
– Ana,Ana. – chamou Fernanda, interrompendo a cantoria. – Tu achas que com tanto surro os peixes vão mesmo ficar cor de prata?







