La Lys: a jornada de dia 11 de Abril

Dia 9 de Abril é o dia que marca o início mas não o fim da chamada Batalha de La Lys.

Quando na tarde de dia 10 a batalha acabara para quase toda a 2ª divisão Portuguesa, havia ainda cerca de 6 dezenas de militares do 13 e do 15, sob o comando do capitão David Magno da 3ª companhia do 13, a combater nas vizinhanças de La Couture em Les Lobes, ao lado dos escoceses. Só no dia 11 para os sobreviventes terminou a batalha. E neste dia, “ao romper da alva, os alemães lançam-se na conquista de novos objectivos, com dois “novos” exércitos. É, então, que da bruma, “de súbito uma estranha negrura surge diante do canal de La Lawe … Os soldados estão alerta… apuram os sentidos… Palpam os cartuchos… E olham os cunhetes da pólvora num relance. (…) Pela mente destes homens, apenas perpassa a alternativa – destruir ou ser destruído. Os maiores anelos de existência, aquilo quanto é grato ao sentimento – lares distantes, pais, noivas, esposas ou filhos… – tudo se esquece, como por encanto. (…) Face ao inimigo poderoso que vem aí, os minutos correm céleres… Na ânsia de viver, um só medo domina todos – que a fera humana adivinhe  que outra fera está aqui, como caçador furtivo, à espera de ver, o tigre cair no laço. Simploriamente os soldados vão exclamando:

– Eia! São mais de mil!

– Silêncio…Alças reduzidas… Canos apontados bem a peito – recomenda o capitão que se aproxima do metralhador…

Do lado de lá não há patrulhas. O único agente de exploração é a metralha. O capitão Magno procura ainda quem possa conhecer a situação ou ter mais autoridade nesta avançada luso-escocesa… E a nuvem negra continua a rolar… a rolar…como um cilindro esmagador… direito a … Les Lobes… À distância de 50 metros – enfim! – crescem  diante de  nós, nitidamente, os rostos enegrecidos como diabos… Porém, nenhuma hesitação. Nem o mínimo pensamento instintivo de um milímetro de recuo, em procura do que quer que seja e possa valer-nos neste transe. Corpo e alma cravam-se aqui apontados à morte, como para-raios em presença da nuvem, a qual se aproxima inexoravelmente.  A alavanca de segurança”.  Tensos, olhos na mira, apenas esperam ouvir “fogo vivo”. E a ordem ouve-se: Fogo vivo. “ E o fogo cruel de setenta espingardas com quatro metralhadoras a dispararem , como guilhotina eléctrica, quase, à queima roupa, ceifa num momento, essa vaga extensa que se atreveu a vir a pé., em ordem unida…

-Munições… munições  … – é o grito de guerra e de salvação… são os clamores que absorvem a linha e toda a razão do nosso ser.

Uivos de dor, logo abafados pela metralha, percorrem a nossa frente. Uma rajada criva Augusto Martins quando verificava o extractor. A arma salta-lhe das mãos … gravemente feridos, a jorrar sangue, retiram amparados – Manuel Ribeiro, Alfredo Freire Gato, António Joaquim, Armindo Alves, Manuel de Sousa..  a linha de espingardas portuguesas e escocesas, escoradas em quatro metralhadoras continua inabalável a  despejar fogo…. O taque-taque das metralhadoras inimigo é assolador e o vespeiro de balas intensíssimo. (…) trinta a quarenta escoceses  guardando a frente e o flanco esquerdo… outros tantos portugueses vigiando a frente e o flanco direito…Assim, decorre o combate mais súbito e formal, violento e trágico, que rezam todas as descrições da nossa grande guerra de 1914-18. (…) A barragem das metralhadoras alemãs é violentíssima. Depois de três dias de combates, o inimigo está suspenso diante de um punhado de homens, sem protecção de redutos ou trincheiras, sem munições e já nem pode sequer levantar a cabeça. (…) Ordenamos a evacuação.  (…) A um gesto começamos a mover-nos… os cotovelos cravam-se no betume da terra. (…) Quando a  metralha sibila mais, estacamos, ficamos quedos, sem bulir, como mortos…” É então, pelo dreno do Lawe conseguem escapar, um a um, 10 dos quase 60 do dia 9, restos da 2ª Divisão, os últimos resistentes: Capitão David Magno; sargentos António de Matos Bugalho (B.I.15, Portalegre), António Simão ( B.I.21, Alcobaça,) Pompeu Martins Gonçalves dos Reis ; soldados –  Manuel Cardoso de Matos (Godim), António Lucas (Alvações do Corgo), Clemente António do Carmo (Mouçós), Joaquim Mendes (Lufrei), Joaquim da Silva Sarmento (Oliveira, Mesão Frio), Laurindo dos Santos (Sedielos) e Guilhermino Pinto Lagariça (Vila Marim, Mesão Frio).

A batalha de La Lys acabara. Honremos a memória de quantos se bateram em nome de Portugal.

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