Jogar no Bingo


Por: João Madureira

Tenho de confessar que esta pandemia provocou em mim o abalo mais forte desde que nasci. É um prenúncio de medo. De medo generalizado que, muito provavelmente, vai levar a mudanças radicais. E estou em crer que este ambiente assustador veio para ficar. 

O rebanho, que já era dócil, vai ficar ainda mais dócil. É esse o sonho de todos os governantes. O que interessa é que o povo tenha medo. E aí está uma nova casta de comentadores que tudo sabem sobre epidemias, virologias, cuidados intensivos, temperaturas, contágios, etc. Em apenas três meses ultrapassaram os comentadores políticos, económicos e desportivos. São os novos lacaios do poder. Estão aí para assustarem. E ajudarem a vender máscaras, luvas, gel alcoólico, viseiras, vacinas e outros medicamentos. 

Cá estão eles para enganar, para ludibriar os que já não acreditam no poder, e para deitar lixívia sobre a cunha, a preguiça, o desleixo, o roubo e a passividade.

Não é quem mais berra quem manda no país. Esses apenas ajudam a distribuir os tostões. O poder está no livro de cheques dos ricos, sempre que decidem desapertar os cordões à bolsa.

Com as novas tecnologias, e com a facilidade de comunicação que permitem, vemos o medo a tomar conta das sociedades, reduzindo o planeta à dimensão de uma aldeia. 

O historiador R. C. Boxer escreveu que “os portugueses têm demonstrado ao longo dos séculos uma notável capacidade de sobrevivência à má governação, vinda de cima, e à indisciplina, vinda de baixo”.

A nossa literatura é um espelho dessas atitudes. A mais divulgada e acarinhada expressa os desejos e os sonhos da aflição dos lisboetas, repleta de sentimentos mesquinhos, de sobranceria e de autossatisfação burguesas. Vive na linha entre Lisboa e Cascais, pensando, e escrevendo nas entrelinhas, que o resto do país é um território estranho e semisselvagem habitado por gente bruta e pobre, cujos hábitos, emoções e problemas lhe são estranhos. 

A verdade é que a vida das elites da capital tem os mesmos defeitos descritos por Eça de Queirós, cheia de personagens bizarros, prosperando no meio da corrupção, dos maus costumes, da baixeza moral, da intriga, da conspiração, do desvio de fundos e de negócios chorudos conseguidos por cunhas e ajustes diretos.

Uma coisa sabemos, esta nova elite política e social é de longe muito mais corrupta do que a do antigo regime. E muito mais talentosa. Mais urbana. Mais culta. Consegue viver com o ouro dos outros. 

Em relação aos novos ricos que infestam a nossa sociedade, e todos os organismos do Estado, os pequenos tiranetes de então eram uns pobretanas. Eles apropriavam-se indevidamente de alguns contos de réis. Mas nem nos seus sonhos mais delirantes conseguiam vislumbrar que os seus filhos e netos viriam a arrecadar milhões. 

O povo, pobre coitado, continua o mesmo: de lágrima fácil, vítima da sua alma carinhosa e de uma pieguice desculpabilizadora que, muito provavelmente, faz parte de uma matriz que dizem definir a maneira de ser portuguesa. 

Claro está que a nossa nova casta lusa está refém da nova casta europeia. Todos eles cuidam primeiro dos seus interesses e só depois se preocupam com os demais. A morosidade das burocracias trata do resto. 

Só um cego é que não vê que a nossa adesão à União Europeia originou algo de construtivo na nossa sociedade, abrindo novas possibilidades. Mas também temos de reconhecer que essas possibilidades foram essencialmente aproveitadas por toda a espécie de oportunistas, burlões e traficantes. No entanto, devemos estar-lhe gratos porque, sem ela, não teríamos saído da nossa dimensão terceiro-mundista. 

A verdade é que a união da União Europeia é frágil.

A verdade é que nos queixamos dos nórdicos porque eles se queixam de nós, devido à nossa propensão para gastar o dinheiro dos fundos europeu em bebidas e na farra.

Mas o facto é que os nórdicos se esforçam por poupar, por ter as suas contas controladas, e por fiscalizarem os seus governos e as suas instituições de modo a poderem ter um futuro para si e para os seus filhos. 

Por isso são avessos  a que uma boa parte das suas poupanças seja dada aos países meridionais a fundo perdido, ou quase. Como disse Rentes de Carvalho: “O pedinte a insultar quem o favorece é uma situação que, mesmo numa comédia teatral, seria insólita.”

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