História e histórias

Por: João Madureira

Parece que o passado já não cabe em lado nenhum. Não tem sítio nem lugar para ficar. Parece que já ninguém o quer. É como uma máscara descartável que se deita fora quando já não nos serve. Ou como um sem-abrigo de quem temos pena. 

Parece que já não sabemos falar sem nos magoarmos. Já não sabemos o que devemos fazer com a nossa história. Talvez escrever outra.

Os anjos modernos perderam as asas.

Parece que a nossa história nos derrota.  Mas o que verdadeiramente nos derrota é o silêncio.

A nossa história, por vezes, foi corajosa. E outras foi cobarde. Todos somos assim. Isso não nos deve nem orgulhar, nem envergonhar. Faz parte da vida.

Os pelos também fazem parte da pele.

Há sempre um meio caminho entre aquilo que temos de preservar da nossa herança histórica e o futuro para onde temos de progredir. Não devemos estar demasiado agarrados ao passado, mas também não o devemos desrespeitar.

A vida é feita de passado, presente e futuro.

A minha avó contava que nas burricadas o mais seguro era montar burros de muita qualidade.

Nesse tempo, os burros de qualidade viviam entre Minho e Trás-os-Montes. Eram os que melhor carregavam. Já os de Lisboa não eram tão prestáveis. Tiveram, nesse caso, de os importar daqui. Usá-los na carga era uma medida de longo alcance.

O ginete do ódio carrega sempre ao lombo a invisível personagem que desencadeia as tragédias.

A verdade é que quando conquistámos Guimarães, isso foi um ato de força do nosso primeiro rei. D. Afonso lá tinha as suas razões para se tornar independente. Tinha razões e génio. Dizem que em dias de batalha não era bom estar perto dele. Deitava fumo pela barba. Quando se habituou às conquistas, afirmam que era um espetáculo vê-lo saltar os fossos mais fundos dos castelos. Aprendeu desde novo a resolver os problemas pela espada. Gostava, sobretudo, de correr à desfilada por essas terras fora atrás dos árabes. Era bravo no investir. Mas também era manhoso. Possuía a grande qualidade de perdoar e de lançar das barbacãs os menores e as mulheres casadas. As solteiras dava-as aos soldados, como passatempo.

A verdade é que é pesado arcar com tanta recordação do passado. Nem que fôssemos todos fidalgos!

Apesar das más línguas, a corte da altura era muito rigorosa em termos morais. Para ter alguns momentos de prazer, aquela gente passava muita canseira. Por vezes faziam belas sestas. Os reis gostavam de se deitar com as primas donzelas. Dizem que ambos dormiam muito bem. E quando o rei, por idoso, não conseguia dormir, punha-se a observar quem dormia a seu lado. O resto é poesia e trovas de amor.

Em Lisboa não sei o que por lá havia. Mas por estas terras a hortaliça era da mais viçosa. Excelentes nabiças, milho do melhor. E pencas tronchudas. E nabos de quilo. Os brócolos brancos eram dos mais deliciosos que se podiam encontrar.  O problema é que os nossos antepassados se cansavam de todos os dias olharem uns para os outros.

Os burros, e os seus donos, tinham o tal costume bem português de escutar a conversa dos outros. Arregalavam os olhos, punham as orelhas ao alto, não andavam nem para a frente nem para trás e escutavam tudo. O mais normal naqueles tempos era morrer-se de moléstia ou a fio de espada. Ainda se sentia a Criação à solta. Os deuses da flora ainda habitavam em refúgios secretos e o reino era um sonho desmedido. Por cima do casario das povoações, o normal era o fumo dorminhoco sair dos telhados escurecidos. Parecia que o colmo estava sempre a arder em fogo lento.

Na aparência, todos se davam como anjos. 

Também se espargiram rios de água-benta pelas nucas e cabeças da criançada.

Espalhados por esse norte fora, os padres deixavam sobrinhos e afilhados como se fossem láparos. E todos robustos de corpo e alma. Sendo nos hábitos e nas parecenças a mais fiel imagem das tentações dos senhores abades.

A verdade é que os invernos eram muito frios, a vida não tinha distrações, as mulheres procuravam bons conselhos e, no final, a carne fraquejava. Nada que uma boa confissão não perdoasse de forma terna e humilde.

A verdade é que estas simples invocações nos trazem muitas saudades.

Todos sabemos que as lajes dos nossos monumentos nos falam das lendas de outrora.

Os pecados dos padres contavam pela metade. Eram os deles e os dos bobos.

Nesta terra somos todos primos.

Bons tempos os de outrora.

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