Evoluções

Por: João Madureira

A civilização surgiu da tentativa do ser humano em se aliviar dos seus esforços físicos. Os mais inteligentes começaram a gastar o seu tempo a criar coisas para não nos mexermos, carros para não termos de andar ou mesmo controlos remotos para mexermos na televisão, esparramados no sofá.

E a evolução foi tal que agora gastamos bom dinheiro com a conta do ginásio. E trabalhamos sentados. E até suamos para não termos de praticar qualquer atividade física ao ar livre.

Vivemos numa época onde se vão propagando ondas de nostalgia. A visão romântica da época medieval só pode ser apreciada por quem decide omitir a verdade histórica. 

Como dizia Paracelso, a diferença entre veneno e remédio é a dose.

Nessas alturas, por causa de um adultério, uma mulher podia ser condenada a que lhe cortassem o nariz e uma bruxa podia ser serrada ao meio ou queimada numa fogueira.

Os tempos que vivemos são incomparavelmente melhores do que os de antigamente. E olhem que esse afastamento temporal nem sequer chega a um século.

O que nos permite viver de uma melhor forma tem tudo a ver com a democratização do ensino, da cultura e da ciência.

Além do mais, sem cultura é mesmo difícil apreciar certas coisas. A aceitação da mestiçagem é um dos mais interessantes conceitos culturais. A lei da pureza é uma coisa pobre. A criatividade resulta da mistura.

Num cartoon que li algures, alguém se dá conta de uma evidência: “Antigamente não havia mulheres e é por isso que elas não aparecem nos livros de História das escolas. Dantes apenas havia homens e uma boa parte deles eram génios.”

Na Mesopotâmia, as tabernas eram propriedade das mulheres. Eram elas que cozinhavam e faziam a cerveja. Depois a casa tomou conta delas. A civilização teve graves consequências para elas.

Por vezes, as mulheres aparecem e desaparecem dos registos como se fossem extraterrestres. Afonso Cruz pôs na boca de uma sua personagem (porque ela, diz ele, não conseguia evitar um instinto maternal em relação aos homens desajeitados, que, bem vistas as coisas, são quase todos): “Sabe como é com as mulheres: queimamos os sutiãs, mas não nos livramos das mamas. Continuamos a sentir vontade de proteger os homens. E Deus sabe como eles precisam.”

Foi precisamente por beber quando não temos sede e fazer amor em qualquer altura do ano, o que acabou por nos distinguir dos animais.

Dizem os entendidos que os quadris femininos aumentaram porque o cérebro também aumentou.

Desmond Morris defende que o principal apelo erógeno é o rabo, sugerindo até que as mamas hemisféricas não são mais do que uma imitação do traseiro.

Em The Naked Woman, Morris escreveu que os glúteos aumentaram drasticamente de tamanho, possibilitando ao corpo manter-se permanente e completamente ereto, “sendo esses músculos responsáveis pelo par de curvas hemisféricas na base das costas que hoje, com ingratidão, achamos risível”. Diz Desmond que a manutenção da postura é apenas uma plataforma de acesso às funções estética e erótica.

A sua tese é curiosa: se a fêmea humana desviasse o interesse do macho para a frente do corpo, a célebre evolução tinha de estar relacionada com a criação de mais fontes de estimulação na região frontal.

“Em dada altura do nosso passado, devíamos estar habituados ao acesso por trás.”

Então uma pergunta se impõe: “Olhando para as regiões frontais das fêmeas da nossa espécie, encontraremos algumas estruturas que correspondam a uma imitação dos primitivos atrativos sexuais, as nádegas hemisféricas e os lábios vermelhos?”

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