Eutanásia

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O dicionário esclarece.
Eutanásia – Direito a uma morte sem dor nem sofrimento para doentes incuráveis, praticada com o seu consentimento, de forma digna e medicamente assistida.
Os legisladores acrescentam: a pedido do paciente, repetidas vezes e num enquadramento médico/legal bem estudado, respeitando a liberdade do paciente em decidir sobre a sua própria vida.
A eutanásia é um tema polémico tal como o aborto, mas que precisa de legislação.
Considero que cada caso é uma caso, não me voluntario para mudar a opinião de ninguém, nem quero, e acrescento que as opiniões e conceitos se vão alterando conforme as situações que vivemos, e consoante os tempos. Respeito as opiniões distintas da minha e respeito que cada um tem um tempo diferente para perceber e se integrar na mudança.
Não passou na assembleia mas irá passar no futuro.
Recuso-me a confrontos verbais, pois normalmente a discussão incendeia-se e parece que dum lado estão os bonzinhos e do outro os assassinos, que atentam contra a vida dos outros, especialmente a dos velhinhos. Entendo que há 3 grupos de opinião, que devemos analisar:
1 – O grupo que se considera sempre a favor da vida, seja em que situação for, por motivos religiosos, filosóficos ou por pura teimosia e que nada os demove. Acreditam que quanto mais sofrerem na terra, mas felizes serão no céu, e portanto qualquer esclarecimento e ou informação é mal sucedida.
2 – O grupo que considera o sofrimento humano, as diversas situações se sofrimento (porque há várias), a liberdade de cada um em por termo à vida, e essencialmente a grande vontade em aliviar o sofrimento dessas pessoas. O sofrimento pode ser resultado de saturação psicológica — alguém que está imobilizado numa cama sem autonomia— ou físico — vivendo um estado terminal de uma doença, em que já não há cuidados paliativos ou condições que possam tornar a situação tolerável. É disto que se trata. Os cuidados paliativos não resolvem todas as situações, nem sempre são eficazes e há pessoas que abandonam a vida num sofrimento atroz. Para defender a vida é urgente perceber como se morre. Cada caso é um caso, cada doença tem as suas características, cada pessoa tem mais ou menos resistência à dor, e cada final é uma morte diferente. A maior parte das pessoas nunca assistiram à morte de ninguém e provavelmente nunca viveram a escalada de desespero e sofrimento das últimas horas ou dos últimos dias e iludem-se com possibilidades que nem sempre têm sucesso. A abordagem teórica do sofrimento está muito distante de viver cada segundo em desespero. O grupo que considera a eutanásia um último recurso e não um propósito, não é formado por assassinos, mas por pessoas com muita decência que após esgotadas todas as alternativas paliativas, concorda em poupar o sofrimento dos outros, por compaixão, por humanismo, recorrendo à eutanásia legalmente e medicamente estabelecida e assistida.

Sou a favor da vida, não sou assassina e é neste grupo que me situo. O problema existe e não vale a pena contrapor que os cuidados paliativos e a família resolvem, porque não é verdade. Muitos de nós temos a ideia que a medicina associada à farmacologia, pode tudo, resolve tudo. Grande erro! Quando viverem uma situação de doença grave verão que as nossas expectativas caem por terra rapidamente. E se temos esse problema é melhor legislar, saber quando e como, do que enterrar a cabeça na areia e pronto. Há que estudar diversos casos, estabelecer limites e saber classificar cada caso. Há químicos que aliviam dores mas provocam complicações que levam à morte – paragem respiratória por exemplo – neste caso é eutanásia ou é estratégia paliativa.

3 – O grupo que considera também, os casos em que, os doentes nem sequer estão em condições de decidir nada, porém, estão em grande sofrimento, também em estado terminal. E este é ainda o grupo mais dramático, pois estar impossibilitado de comunicar não impede que gemam com dores e que as sintam.
Também acho que se deve atender a estes casos.

Considerações finais: Não sou médica, já vivi de perto algumas situações familiares muito dramáticas que se for eu a vivê-las, agradeço que me ajudem a resolvê-las, mesmo que isso signifique viver menos 1 dia, 1 semana ou 1 mês.
Enquanto há vida há esperança, é algo que conforta, mas nem sempre se verifica, e a espera pode ser insuportável.
Há doenças e momentos que nós, leigos e ignorantes, achamos indignas e de sofrimento e pensamos que não poderá haver pior, mas iludimo-nos que com ajuda serão suportáveis. Mas há sempre pior e pior, até que os nossos órgãos abrem falência progressiva, incontornável e irreversivelmente num mar de dor e sofrimento, que se torna misericordioso que se ponha um ponto final, se essa for a vontade repetida do doente.
Legalizar não significa que ninguém vai obrigar ninguém, mas que tudo pode estar bem claro a nosso favor.
A eutanásia já é uma prática, mas age-se de forma camuflada, clandestina e isso sim é que se torna perigoso.
Quando se desliga a máquina que nos sustenta a vida? Quem decide? Por quanto tempo? Quem avalia se suspende ou não um tratamento? Quando o alivio da dor poderá comprometer a vida do doente de forma indirecta, o que se deve fazer?

Não passou, mas passará!

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