Desencosta, Costa

Por: Joaquim Ribeiro Aires

“Desencosta, Costa.” Eram vozes que voavam do cais e se anichavam nas águas agitadas e malcheirosas que batiam na murada e no casco do iate LFV. Costa ouvia e não ligava, mas, com as mãos em funil, as vozes não se cansavam: “Desencosta, Costa, sai desse mar”. E o mar estava cada vez mais revolto. Havia outros, como Costa, que também vogavam naquelas águas sujas. Fernando, que era um deles, sorrindo, acenava-lhe com um lenço vermelho. Outros – o Duarte, o Sílvio, o Telmo – do outro lado, cada um no seu batel, faziam guarda de honra ao LFV. À volta, havia muito lixo a boiar. Mas aqueles «marinheiros» de água doce não se preocupavam com as vozes que os queriam desencostar daquele grande iate que, amanhã, os podia acolher, na hora de uma vitória anunciada. Ali, da ponte  chegaria o dia em que poderia brindar com champanhe francês, vodka e caviar e outras iguarias. Aquele encosto dar-lhes-ia guarida nos dias difíceis deste país em fase pandémica, cada vez mais perigosa, e ser-lhes-ia proveitosa nos dias futuros, quando se voltasse a decidir nas urnas o futuro das cidades e da nação. Que se lixassem aquelas vozes alheias que só sabiam criticar. Afinal eles sempre tinham vivido ao lado dos senhores do emblema que o dono do iate representava.

António remou para o cais e enfrentou os contestatários.

– Estou, ali, como cidadão e como tal faço o que muito bem me apetece – argumentou.

– Não –  avançou um homem de cabelo grisalho. – O fato que veste…

– Que tem o meu fato?  – interrompeu  Costa.

– Tem o talhe de primeiro-ministro.

– Na, não! O que visto, nesta circunstância, é o  de cidadão, já o disse.

– Cidadão que é primeiro ministro – não desarmava o interlocutor directo.

–  Há que separar as águas. Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.

– Verdade. Mas ambas as coisas estão coladas uma há outra, quando se é o que o senhor é.

António, o Costa desta história, não queria acreditar no que ouvia…

– É um absurdo. Não compreendo.

– Não compreende, é?

– É.

– Então eu vou lembrar-lhe João Soares. – António cruzou os braços, franziu a testa bronzeada –  Um dia, nos inícios de  abril de 2016, a propósito de umas bofetadas que João Soares, Ministro da Cultura, prometeu a jornalistas,  v. exª, António e primeiro ministro disse: “ nem à mesa do café podem deixar de se lembrar que são membros do governo”. Está perceber onde eu quero chegar?

– Quê?!

– Está a fazer-se de desentendido. Mas não convém sujar esse fato, enquanto for o que, politicamente, é.

– Mas sujar como?

– Essa  comissão onde se acolheu…

– Continuo a não perceber.

– Porque é teimoso, não dar o braço a torcer. Não acredito que é  incapaz de perceber que o papel que desempenha no país o obriga a uma certa prudência e reserva. Não vê que está a fazer de «cavaleiro da triste figura»? Esclareça-me que honra é essa? Honra de quem?  Ainda não percebeu que está a dar um aval a uma pessoa que é um dos maiores devedores do BES, cujas dívidas o povo está a pagar, além de indiciado, pela justiça, em actos  igualmente graves? Porque empenhou o seu nome, quando não o fez com José Sócrates?  Então disse que era necessário separar águas e agora mergulha tão profundamente nelas? Oportunismo? Populismo? Esperançoso em manter ou ganhar votos só porque pagou a fiança moral de LFV? Não está a substituir a sua inteligência por burrice?

António saiu dali a fumegar por dentro e a pensar que se calhar, mais uma vez, pôs a patinha na poça. Pior ficou quando soube que o Príncipe de Belém queria falar-lhe sobre o assunto.

Dias depois, ainda alheio ao que de se continuava a dizer e firme na sua vontade. Acabou por ouvir também do LFV “ó Costa, desencosta”.  António sentiu-se varrido. Sentou-se na escadaria de S. Bento, cabeça entre mãos. Não de muito longe ouvia uma melodia com uma letra que parecia ser-lhe dedicada:

Desencosta, Costa

se tens brio

olha que tanto amor

a LFV é desvario.

Mesmo confrade,

lava a tua mão,

dessa missa não vistas

opa de sacristão.

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