Claro que me lembro


Por: João Madureira

Claro que me lembro. Lembro-me de assistir ao velório de Salazar num café de Montalegre enquanto bebia um Sumol e esperava que o meu pai terminasse o seu copo de vinho e a conversa com os amigos. O fascismo português cheirava a mofo. Ainda existia a guerra colonial, que cheirava a morte e a medo. As aldeias, as vilas e as cidades de província eram lugares obscuros e clericais. Eu tinha doze anos e cheirava a criança.

Chaves, nessa altura, vivia acossada pelo campo e coberta pela névoa. A cidade estava rodeada por alguns bairros, onde viviam os pobres e os remediados. Junto ao rio existia uma série de hortas e descampados onde a cidade acabava. 

A adolescência era uma coisa quase cruel. Naquela altura havia medo, que era um sentimento muito comum entre a rapaziada que se organizava em grupos. E esses grupos tinham líderes. Era uma forma de combater o medo. Quase sempre se troçava dos marrões com palavras e com murros nos ombros e nas costelas e um que outro bofetão, ao que os mais franzinos respondiam com risos, fingindo devolver os golpes, tentando disfarçar o incómodo e a seriedade da violência, como se fizesse tudo parte da mesma brincadeira. Quando se tornava impossível disfarçar a brutalidade da diversão, o mais avisado era mesmo fugir. 

Os grupos de rapazes transformavam-se em matilhas. Quando alguém era humilhado sobravam os risos, os gritos e as conversas parvas. Era normal armarem-se ciladas nas escolas, nos bares, nos cafés e até nos jardins. A idiotice era larga e extensa. E não havia denúncias, pois os denunciantes ou eram mentirosos ou bufos. E os nossos pais gostavam tanto de nós que não tínhamos sequer o atrevimento de os colocar em situações embaraçosas ou mesmo insustentáveis. 

Muitas vezes ir para o liceu era um calvário. Se de um lado os colegas eram brutos e grosseiros, muitos dos professores eram ainda piores. Estávamos encurralados. E aquilo não nos ensinava nada. Conhecer o mal não nos torna melhores. E não serve absolutamente para nada.

Muitos ficavam em casa ou então refugiavam-se nas salas de jogos, onde havia matraquilhos, bilhares ou flippers. Também existia o cinema. 

A verdade é que a maioria de nós era magra, morena e com aspeto chunga. Vestíamos calças justas e à boca de sino e usávamos cabelo pelos ombros. O rendimento familiar não dava para mais. Os que jogavam mal davam frequentemente murros nas máquinas de flippers

A verdade é que jogávamos pouco porque éramos uns tesos. 

Encontrar alguém interessante era algo de inverosímil. 

Era frequente os mais débeis serem perseguidos e ultrajados e, frequentemente, acusados de cobardia. Os parvos riam-se dos néscios. Era difícil encontrar consolo e alívio para as humilhações.

Uma coisa vos digo: o medo não é racional. Os olhares eram lançados de soslaio. 

Depois, apareceu a rapaziada vinda das colónias e com ela muita boa música, liamba e haxixe.

Alguns eram idealistas e viam filmes que os ajudavam a distinguir os bons dos maus. É quase sempre aí que começam os problemas. 

Durante o inverno, as noites na cidade deixavam sempre uma sensação de escuridão, humidade, frio, imundície e solidão. Durante o dia não podíamos fugir à tristeza das fachadas das casas junto ao rio e das cordas cheias de roupa estendida a secar ao sol, que era de pouca dura. 

A verdade é que sempre pensei que me iria daqui embora, até porque esta não era a minha terra. Mas agora é a minha cidade, para o bem e para o mal. A minha mulher é daqui os meus filhos são daqui e os meus familiares falecidos estão enterrados a doze quilómetros de Chaves. 

Apesar de tudo, a verdade é que amo esta cidade muito mais do que a odeio. Ás vezes, até sinto orgulho dela. E penso que fiz tanto como os outros para ela ser como é. Hoje está bem melhor do que quando aqui cheguei. 

Claro que ainda é uma pasmaceira, mas era-o muito mais naquela altura, com o Marcelo Caetano e o Américo Tomas ainda vivos. 

A delinquência era insipiente. Em Chaves, toda a gente sabia tudo acerca de toda a gente. Dizia-se que os lugares pouco recomendáveis ficavam na zona velha ou no outro lado do rio. 

Naquela altura, existiam na cidade muitos, mas mesmo muitos, bares e tabernas onde se bebia cerveja e vinho. E também se fumava. Naquela altura quase todos os rapazes e homens fumavam.

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