Por Ribeiro Aires

Vila Real homenageou, mais uma vez, Carvalho Araújo, agora, no aniversário da sua morte. Vila Real homenageou?  Que Vila Real? Eu não vi nem senti Vila Real no passado dia 14 ao lado do herói que é seu. Eu só vi uma Vila Real muito pequenina, menos de um terço daquela que nos finais do século XIII se instalou naquele recantozinho a que damos o nome de Vila Velha.

Vi e senti a Câmara Municipal de Vila Real a cumprir o seu dever nestas celebrações que começaram, oficialmente, em 19 de Maio, e terminarão em 18 de Novembro. Vi o exército, o R.I.13, associado aos vários actos, não sendo o homenageado da sua arma, mas um filho da terra, onde assenta a sua base militar. Vi associações – Liga dos Combatentes, dos Marinheiros de Trás-os-Montes e Alto Douro, bombeiros – venerarem o homem que foi exemplo no passado e orgulho de uma Arma e da sua terra. Vi a junta de freguesia querer honrar mais uma vez o destemido Comandante, fazendo exibir a marcha de S. António, com dedicatória a Carvalho Araújo.  O Povo? Meia dúzia de curiosos, de «gatos pingados», de «passantes» ocasionais pela Avenida. Eu sei que cada um tem as suas vidas, tem os seus problemas, tem as suas prioridades, tem as suas conversas, têm todos os direitos de se borrifarem para tudo e mais alguma coisa. Que se «quilhe» o Carvalho Araújo. Tudo certo. E, então, o ou a a (furação ou tempestade) Leslie atormentara-nos a noite… Olhem, como há cem anos nos mares dos Açores  acontecia a «depressão»  chamada U-139, um submarino alemão a agitar as águas, a fazer ondulação, a causar pânico num navio de passageiros chamado S. Miguel, incapaz de fazer frente ao demónio, deixando a «espada» para um barquito que fora rebatizado com o nome de Augusto de Castilho,  onde um marinheiro audaz, sem medo, o enfrentou até ao derradeiro fôlego.

Eu andava por ali, máquina fotográfica na mão, para mostrar neste jornal o que foi a tarde. E os meus olhos inquietos procuravam uma câmara de televisão. Não vi nenhuma!  Parvo que sou em espantar-me. Houvesse uma manifestação radical de homossexuais e lésbicas e não faltariam reportagens a demonstrar dizer que em Vila Real é que é. Foi o que aconteceu há meses. E também era domingo. Quando se soube que o FCP vinha jogar com o Sport Clube de Vila Real a eliminatória da taça de Portugal, era a tarde uma menina e já canais televisivos  divulgavam  imagens pelas suas antenas depois de na Avenida inquirirem os transeuntes sobre a importância do prélio. Olhem, tão desequilibrado quando o foi o combate nos mares dos Açores entre a equipa de Carvalho Araújo e a de Arnauld de la Perière. Tivesse a Leslie derribado  a estátua de Carvalho Araújo, como se uma árvore fosse, e logo… ai logo estariam todos os canais aí.  Agora, para quê falar de um marinheiro que morreu há cem anos? O importante é o imediato. Se nele houver sangue tanto melhor. Lembram-se dos assassinatos na Araucária e Srª da Conceição? Pois é. E se  houver escândalo, é óptimo. Há um pedófilo à solta, um violador de mulheres, um assassino, vamos já lá, nem que chovam canivetes. E por onde andou a imprensa diária? Quem a viu? Nem uma linha escreveram sobre o acontecimento. Dá o Sobral um peido, como ele disse, e logo falam do «acontecimento». Se ‘calhar’ têm razão, ele foi o herói de 2017. É para espantar? Obviamente, que não. Todos nós sabemos o que a «casa» ( imprensa diária lusa) gasta. Carvalho Araújo foi um «gajo» que morreu há cem anos, que é que isso interessa agora?!  O pessoal até estava de fim de semana!

O embaixador Seixas da Costa disse em 19 de Maio último, no Salão Nobre da Câmara Municipal, por ocasião do aniversário de Carvalho Araújo, ocorrido dia anterior, disse uma coisa muito simples: “aquela estátua faz parte da paisagem urbana. Vemo-la ali e já não nos interrogamos sobre ela.” Ainda seria interessante fazer um inquérito de rua a perguntar: “ Sabe quem foi Carvalho Araújo”?

Despedimo-nos, hoje, com uma estrofe da marcha de Sto António da freguesia de Vila Real, que dá uma resposta à questão anterior.

“Orgulhamo-nos dos heróis

Que ditaram a História;

Hoje, cem anos depois,

Este, trouxemos à memória.

Foi político, militar,

Jornalista e marujo…

Morre, lutando no mar,

José Carvalho Araújo!”

 

 

 

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