Ao fim de mais de seis meses, a Catalunha continua intervencionada pelo Estado central espanhol, através do artigo 155. A causa, a Declaração de Independência da nova República Catalã, que a maioria dos cidadãos escolheu em referendo. Os argumentos, que o referendo era ilegal à luz da Constituição espanhola e que a sua realização após proibição governamental configurava um crime semelhante ao terrorismo, passível de resultar em cerca de trinta anos de prisão para os responsáveis pela sua realização.
Outras consequências, além da intervenção estatal que retirou, de facto, a autonomia à região da Catalunha pela primeira vez desde a transição democrática espanhola de há mais de 40 anos, foram a obrigação de realização de eleições (com repetição da vitória independentista) e uma estratégia de subida de tom por parte do governo de Madrid relativamente a este assunto, largando finalmente a estratégia de desvalorização das pretensões independentistas, seguida por Rajoy desde, pelo menos, 2011, quando assumiu o poder, senão mesmo desde antes disso, ainda como líder da oposição.
Quando, em final de janeiro, me debrucei sobre esta questão pela última vez, Puigdemont tinha acabado de ver a sua investidura impedida pela conjugação de forças entre poder executivo, poder legislativo e poder judicial, uma mistura tão letal quanto perigosa. De facto, vários atropelos à separação de poderes foram necessários para impedir vias criativas mas, ainda assim, legais sob o ponto de vista da soberania autonómica catalã, para que o anterior presidente da Generalitat pudesse retomar o poder e exercê-lo, eventualmente, desde Bruxelas.
Antevi, nessa crónica, que Puigdemont acabaria por ser obrigado a governar a Catalunha por interposta pessoa, tendo apostado que a escolha recairia em Elsa Artadi, sua braço direito. Ora, depois de várias tentativas, que mais não foram do que desafios que obrigaram Rajoy a desgastar-se e a perder-se numa teia cada vez mais enredada de contradições e que tiveram como efeito prático a cedência da estratégia de ataque do poder central apenas ao braço judicial, nomeadamente no juiz Llarena, finalmente Puigdemont escolheu aquele que se configura, no papel, como o seu sucessor no cargo mas que funciona, de facto, como seu representante em Barcelona. A escolha acabou por não recair em Artadi (que será a porta-voz do novo Govern) mas sim em Quim Torra, um independentista muito mais radical do que esta, ou até do que Puigdemont.
O que significa esta escolha e até que ponto pode ela significar um rumo para os quatro anos que, previsivelmente, durará a legislatura? Quais os desafios mais prementes? E mantém-se a questão catalã suficientemente importante para ser acompanhada?
Comecemos pelo fim. Na minha opinião, o problema da Catalunha mantém-se firme como um dos dois temas fundamentais da Europa para a próxima década (pelo menos), sendo o outro o Brexit. Ambos concorrem para a redefinição dos valores da União Europeia e para a disputa entre uma Europa de nações ou uma europa de regiões, que na minha opinião pode ser a diferença entre o aprofundar do projeto ou o seu esboroar. É esta importância futura que justifica, na minha opinião, um acompanhamento próximo de uma questão que pode demorar alguns anos a ser vencida por um dos lados.
Relativamente aos grandes desafios dos novos líderes catalães, eles são enormes. Manter um clima de confronto institucional com Madrid deverá ser chave para o sucesso de um mandato que não agradará nem a espanholistas, nem a independentistas, nem a moderados. Qualquer regresso à normalidade pode desmobilizar a causa e não tenho dúvidas que um dos objetivos será fazer tombar Rajoy nas legislativas que se realizarão entretanto.
Nos primeiros dias, Torra fez-se nomear sem jurar a Constituição espanhola ou o rei, prometendo fidelidade apenas ao povo catalão, nomeando ainda para a sua equipa dois exilados e dois presos preventivos (provocando a ira centralista, novamente pela via legal) e viajando ostensivamente a Berlim para receber ordens de Puigdemont. As suas referências permanentes à república catalã e ao referendo de 1 de outubro manter-se-ão como símbolos do separatismo na gestão do quotidiano enquanto o President no exílio tentará manter o conflito europeizado.
O fim da intervenção do artigo 155 será, tenho a certeza, comemorado como (mais) um dia da independência, mas abriu-se um novo capítulo de estabilidade nesta história.

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