As insónias do Papa Francisco

Por: J: Ribeiro Aires

O Papa Francisco tem noites de insónia como qualquer um de nós, quando algo nos aflige. Algumas delas são provocadas pelo arrefecer dos pés, coisa desagradabilíssima. Então, ainda de olhos fechados, surgem ao Santo Padre ideias «calientes» para os aquecer. O último fósforo que acendeu a lamparina da sua mesinha de cabeceira saiu de uma caixa com a marca “gay”. O fósforo quando se acende vive fulgurantemente aquele instante de vida tão brilhante e tão quente quanto breve. É o seu momento  brilhante, vistoso, um instante de alegria fugaz, mas intensa. É exactamente tudo o que significa o termo inglês gay e o francesíssimo “gai”, que, não sei quem, nem quando, lhe deu  um outro significado: homossexual, maricas, dizem os dicionários. A modernidade  retirou à palavra  o registo pejorativo, porque negativo  e já sem sentido. 

Não sei se a última insónia, quero dizer discurso,  do Papa Francisco resultou ou não em bronca, quando falou sobre os casais homossexuais. As suas palavras – “os homossexuais são filhos de Deus e têm  direito a uma família” –  ribombaram pelo mundo, merecendo aplauso entre os sectores a quem mais interessavam e causando, simultaneamente, azias  no seio dos católicos mais conservadores. Mas o devemos entender das  palavras do Papa? Disse ele alguma coisa extraordinária? Que todos os homens e todas as mulheres (ordem alfabética…) homossexuais são filhos de Deus, não há dúvida, não oferece contestação e não é preciso bater palmas por isso, nem dar pulos de contente e agitar as bandeiras arco-íris.

O conceito de família moderno ultrapassa as definições puramente ancestrais. A família era um núcleo humano, formado por pessoas ou por um número de grupos domésticos ligados por descendência a partir de um ancestral comum, matrimónio, que viviam ou viveram na mesma casa. Hoje, pode ser formada por pessoas solteiras, casais heterossexuais, casais homossexuais, entre outras constituições presentes em diferentes contextos sociais. Seja como for, a família é sempre uma das unidades básicas da sociedade.

Mas será que as declarações do Papa significam “casamento” no sentido restrito  e religioso do termo?  O que o Papa aceita ou defende (digo eu) é que a Igreja não deve  – e desde agora não o fará – discriminar estas uniões civis –  civis, disse bem – e não vai marginalizar, nem escorraçar  da Igreja os casais homossexuais porque são filhos de Deus. Muitos destes casais, se crentes, ficaram aliviados. Se acreditam no inferno não é por viverem juntos, da forma que escolheram para si, que vão arder nas «calientes» chamas que o demo acenda nas fornalhas que acende nos confins do universo, num daqueles planetas que  o homem, ainda, não conseguiu saber da sua existência. Dizem comentadores que Francisco já proclamara esta ideia, quando era arcebispo de Buenos Aires.

Ora, estejam descansados os mais puristas e desenganem-se os mais afoitos e apressados, que a doutrina quanto ao casamento, como união entre um homem e uma mulher, não vai ser alterada nem tão pouco vai ser aceite a adopção por casais homossexuais. No entanto, as crianças adotadas têm direito a ser educadas na religião católica e irem à catequese como todas as outras.

Tem sido citado o exemplo de  Andrea Rubera que, com o parceiro, tendo adoptado três crianças, escreveu ao Papa, dizendo-lhe que as queriam adoptar  catolicamente. O Papa disse-lhes para as levar à paróquia. Ora aí está: os homossexuais  são filhos de Deus e têm o direito a uma família. Ou seja: todo o ser humano tem direito a ser feliz da forma que entender, desde que não limite a liberdade e a felicidade de outros.

A Igreja  tem de ser plural, tem de aceitar  todos os que nela queiram estar. A Igreja Católica não é uma seita. O fanatismo teve o seu tempo, fosse na Baixa ou Alta  Idade Média,  ou nos séculos XVI e XVII.

Mas, no interior da Igreja há sombras por detrás das colunas, dos arcos românicos ou góticos. Há no seu seio quem considere que estas modernidades do Papa  são um escândalo muito grave.

O  Sumo Pontífice, às vezes sonha que o mundo deve ou tem de ser diferente do que actualmente é. Acorda e pensa que ele pode fazer alguma coisa para que a humanidade se sinta filha do mesmo Pai, ainda que muitos não pensem do mesmo modo. Francisco  é o bom pastor que não rejeita nenhuma das suas ovelhas, seja ela manca ou mirolha.

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