As escadas da liderança

Por: João Madureira

A ambição dos líderes é sempre inversamente proporcional ao desinteresse dos adeptos. A tribo do líder luso é constituída por um grupo provinciano, onde abunda a juventude, e por núcleos de gente iludida pela frustração onde se desencadeiam as ambições, conspirações e as traições. Nesses grupos de assalto democrático ao poder predomina a fantasia e a busca de satisfações de compensação. Todos sabem que para se chegar ao topo têm de se elaborar os tais discursos interessantes sobre a moral social.

A popularidade do líder tem de ser confidencial. Um homem respeitável reconhece-se na adversidade. Convém também não ter escrúpulos exagerados. A vaidade exige alguma simplicidade. O calor dos aplausos prepara o momento da ascensão.

O príncipe tem de, muitas vezes, descobrir o seu principado. A boa lenha não deixa cinza depois de arder.

O mais importante em política é o adversário, pois é ele quem é capaz de unir as hostes em volta da esperança e da obrigação. É ele quem desculpa o erro e quem obriga a fazer opinião. É o adversário quem justifica os bobos. Os melhores são os mais instruídos.

É então quando os princípios se começam a evaporar. Depois agradecem aos traidores a fantasia da calúnia.

O momento alto da política tem lugar quando os burros começam a voar. Há lá coisa mais bonita!

Tem então lugar o ato simbólico de colocar a cenoura na ponta da vara. E o sermão maravilhoso do tal lugar comum que diz: “A verdadeira sabedoria vem da intuição e do coração, não das coisas que vêm nos livros.”

E distribuem-se mais cenourinhas.

Mesmo não sendo todos nós gente bonita por fora, somos todos bonitos por dentro. A tribo rejubila. O líder sabe ter razão. Sabe construí-la.

Mais burros a voar.

Nova distribuição de cenouras. Muitas delas biológicas, para não se discriminar ninguém.

Alguns começam a ficar cansados de tanto voar e a pousar nos fios.

A verdade é que agora está na moda falar da política e dos políticos. Insultá-la. Difamá-los. Mas temos de nos amar uns aos outros.

Invocam-se os privilégios. É tudo inveja.

Claro que a oposição tribal começa então a dizer que o atual líder pertence a uma espécie refinada de vendedor ambulante peripatético que negoceia na compra e venda de ideias. Muitos dos comensais assemelham-se a dentes desvitalizados que têm que corresponder ao que deles se espera.

As ideias ousadas do líder não passam de ideias feitas alinhavadas por gente precipitada, geralmente jovens que costumam conspirar no sótão das casas.

Os líderes a sério não dão só desgostos. Dão e recebem.

Vencido o medo. Vencida a dor.

Todos os processos políticos são ambivalentes. Quando o fardo se torna demasiado pesado, o carregador deita-o fora.

À medida que a pança dos chefes cresce eles parecem ficar mais pequenos. A verdade é que poucos conseguem responder àquilo que queremos saber.

Chega sempre o tempo de se perder o respeito pelo líder. O respeito, que não o decoro democrático. Da epopeia do extraordinário passa-se à poética da mediocridade. O destino perdeu a sua amplidão, agora é uma espécie de felicidade menor.

Não é fácil tentear a maleabilidade com a força. Não se pode passar uma vida inteira a amar a vulgaridade.

Faz parte do bom senso não viver acima dos nossos meios, da nossa inteligência e da nossa cultura. Não devemos agir ao contrário da nossa natureza.

Mas o líder deve continuar a privilegiar os conselheiros prestáveis e as amizades comovidas. E continuar fiel ao princípio de que é sempre importante promover a igualdade de oportunidades misturando-as com o raminho de cheiro das ambições pessoais. Sem ambição não há progresso. E o líder é um progressista, apesar de uma ou outra tirada reacionária ou extemporânea.

Convém estar sempre atento para que sobre as asas da águia não comece a voar a tal carriça do dichote popular.

Mas o seu lado escotista dá-lhe alguma tranquilidade. Por isso sabe que é impossível viver no meio do monte sem deixar rasto, sofrer arranhões e sujar as mãos.

Antes de se chegar a príncipe tem de se desenvolver alma de criado. Tem de se servir antes os senhores.

Os líderes democráticos são aqueles que substituem, com êxito, a palavra caridade por solidariedade.

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