Ainda há esperança na imprensa tradicional

Há uns meses atrás entrei num quiosque para comprar um jornal. Havia uma fila para o balcão. Olhei para as mãos daquela gente e reparei que ninguém tinha um jornal ou uma revista, aliás, todas as pessoas que ali se encontravam estavam de mãos vazias. Esperavam a sua vez para comprar tabaco ou registar uma aposta desportiva. Procurei nas prateleiras do fundo o jornal que eu queria comprar. As de cima estavam preenchidas com porta-chaves, peluches, isqueiros, molduras… Assim que encontrei o que queria, fui para a fila. Ainda vi um senhor a folhear uma revista de automóveis e outro a olhar para as capas dos jornais desportivos, mas os dois saíram da mesma forma: de mão no bolso a arrumar o maço de tabaco. Deixei aquele espaço com uma certa tristeza. Percebi que, para aquelas pessoas, o quiosque já não era um local de venda de jornais e revistas, era apenas mais um sítio onde se comprava tabaco e quinquilharias. 

Acredito que há algo de romântico em comprar um jornal, folheá-lo, sentir o cheiro do papel, ficar com os dedos “esborratados”. Mas, nos tempos que correm quase ninguém está disposto a apaixonar-se por jornais. Até nos cafés e pastelarias, o “WiFi” substituiu os “jornais da casa”.

O declínio da imprensa não é algo recente. Em Portugal, nos últimos vinte anos, foram vários os jornais de tiragem nacional que deixaram de se publicar, foram muitos os jornais locais que desapareceram. Desde o advento da internet que se fala no fim dos media tradicionais, com a sua transformação em meios digitais. Na verdade, algumas publicações mudaram-se exclusivamente para o espaço online, outras já nasceram nas plataformas digitais. Houve uma necessidade de adaptação ao novo paradigma. No entanto alguns jornais não conseguiram, principalmente os de cariz local e regional. Os jornais nacionais que resistiram foram forçados a mudar de identidade, associaram-se a grupos de comunicação social e passaram a cativar leitores através das redes sociais com títulos enganadores e temas sensacionalistas. 

2020 foi o ano em que a internet demonstrou a sua capacidade de compactar a nossa rotina num só aparelho. A digitalização dos nossos hábitos revelou-se uma (triste) realidade.  O teletrabalho substituiu o trabalho presencial, as aulas foram lecionadas à distância, grande parte das compras realizadas online, muitas relações interpessoais foram feitas através de um ecrã e os jornais ficaram nas prateleiras do fundo de um quiosque qualquer enquanto as pessoas “devoravam” noticias nas redes sociais e em sites, às vezes de qualidade duvidosa. 

A digitalização da imprensa não é algo negativo. A internet não surgiu para substituir os meios já existentes, mas sim para os complementar. O facto de um jornal ter uma página na internet e redes sociais não implica a sua desistência em papel. Apenas demonstra a sua capacidade em alcançar os leitores nas plataformas online e criar com eles uma relação interativa, podendo o público interagir em tempo real com a equipa da redação. 

Acredito que a imprensa tradicional não vai deixar de existir tal como a conhecemos. É certo que as plataformas digitais apresentam várias vantagens e nos últimos anos a internet tem conquistado espaço, provavelmente 2020 foi o ano de maior crescimento. Mesmo assim, a imprensa tradicional tem resistido. Apesar de alguns jornais terem sucumbido à crise, outros continuam a luta contra as adversidades. Ainda há esperança, até porque ainda há gente que lê em papel, ainda há gente apaixonada pelos jornais “à moda antiga” e acima de tudo há quem esteja disposto a fazer aquilo que mais gosta custe o que custar.

Manuel Almeida

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