A visita do ti Bispo


Por: Anabela Quelhas

Em outros tempos, nenhuma casa tinha um quarto de banho, digno para receber o Sr. Bispo. Ele viria visitar a aldeia e todos andavam numa azáfama, para mostrar que aquele povo de lavradores era bom anfitrião, sabendo receber bem a entidade eclesiástica. A Excelência Reverendíssima ficaria na melhor casa da aldeia, cama de penduricalhos, lençóis de linho, colcha adamascada, chinelos que vieram do Brasil, lavatório de esmalte, jarra com hortênsias, água de rosas numa bacia… Iriam matar um cabrito para as suas refeições e a melhor galinha, para fazer a melhor canja das redondezas. 

O problema era a retrete. 

Na aldeia, as casas tinham um buraco no chão ou num banco com abertura para a loja dos animais. Não havia tempo nem dinheiro, para ir à Bila comprar aquela cadeira que existe na casa dos ricos. 

Alguém teve uma ideia brilhante:

Retiraram as vacas da loja, mudaram a palha e arranjaram um Ajudante das Necessidades. Com o cabo de uma vassoura, fizeram uma pequena almofadinha revestida a algodão em rama e entregaram ao Ajudante das Necessidades que teria como nobre missão, limpar o rabo de Sua Excelência, o Bispo. O Ajudante deveria permanecer na loja junto ao buraco da retrete, atento, quando se abrisse o buraco, esticaria os braços e com o tal cabo almofadado limparia o rabo ao Bispo, quando ele terminasse de fazer as suas necessidades. Certamente o ti Bispo nunca teria sido tão bem tratado‼!

O dia da visita chegou, tudo correu bem até que o Reverendíssimo teve que defecar e dirigiu-se à retrete.

Abriu a tampa do banco sanitário e calmamente “arreou o calhau”. No final sentiu algo suave a passar pelo seu traseiro celestial. Ficou tão surpreendido e curioso que se levantou e espreitou pelo buraco. O ajudante em baixo, pensando que não tinha exercido bem a sua função, repetiu o gesto e voltou a passar a almofadinha de algodão.  

(conto e reconto)

Esta é uma oportunidade para reflexão sobre as condições de vida há 50 anos. Para quem defende que tudo era muito melhor, engana-se. Há 50 anos, nas aldeias, ter uma simples sanita era um luxo. A banheira era uma bacia, onde se tomava banho de assento, depois de aquecida a água no pote ou no fogão.

Hoje, todos terão um quarto de banho com sanita, mas falta o saneamento, Sr. Presidente! Falta o saneamento.  

A. Q.

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