A Nova Avenida

Geral

A velha Avenida Carvalho Araújo, sala de visitas da nossa cidade, ex-libris a que deu nome o nosso herói local, cujo centenário da morte se celebra este ano, vai desaparecer tal como a conhecemos. Em seu lugar levantar-se-á um novo espaço físico e social, cujas ideias principais foram apresentadas aos vila-realenses no último dia 16 de fevereiro e cuja obra se prevê que arranque ainda este ano.

A Avenida é, à imagem de outras avenidas, noutras cidades, o centro cívico de Vila Real. Tem uma dimensão física mas também tem, é inegável, uma dimensão simbólica referencial e identitária, tendo conseguido manter-se, a despeito do enorme crescimento do perímetro citadino, como a artéria nevrálgica da nossa malha urbana.

Não se trata de uma entidade única ou uniforme, antes se definindo como um espaço agregado de múltiplos pontos de interesse, como se diferentes camadas, sejam de serviços públicos, sejam de órgãos de soberania, sejam ainda da dimensão religiosa, convergissem num mesmo espaço, lado a lado com os mais icónicos espaços sociais do burgo.

Como entender então o risco duma intervenção profunda na Avenida, capaz de lhe alterar para sempre a fisionomia e de marcar um “antes” e um “depois”? Sou da opinião de que há vários prismas pelos quais se pode olhar esta decisão e perceber melhor o calendário da operação.

O primeiro prisma é o venal, não fosse a economia o alfa e o ómega da sociedade atual e do modelo que escolhemos para conviver entre todos. Assim, a integração desta operação urbanística no Plano Estratégico de Desenvolvimento Urbano, permitindo o seu cofinanciamento, é uma das chaves para a sua execução. De resto, já o terço mais a sul da Avenida havia sido intervencionado há uns anos e a grande motivação já havia sido esta, aquando do surgimento dos programas Polis. Onde se puder alavancar investimento próprio com fundos alheios encontramos a boa gestão pública e estas sinergias, desde que utilizadas com transparência e com ampla discussão, só podem ser vistas como positivas.

Ora, a transparência do processo tem de ser vista, forçosamente, como outro dos prismas desta decisão. A ideia que foi apresentada tem um conceito, uma visão onde se encontram o utilitarismo com a harmonia da arquitetura, mas não é uma ideia fechada a contributos da cidadania. Naturalmente que um projeto desta envergadura não pode ser partido em múltiplos módulos e simplesmente coladas várias “mini-intervenções” na Avenida, mas ficou a perceção de que diferentes pormenores poderão estar abertos a opções alternativas, sujeitos aos resultados da discussão pública.

Mas a intervenção no ex-libris da cidade não se faria sem uma forte componente de vontade política, e este é outro dos prismas para compreender esta operação. O presidente da Câmara, Rui Santos, concluiu já um primeiro mandato com uma série de obras emblemáticas concluídas, mas nada da dimensão de uma refundação de um espaço público como o que está em causa. E, sendo certo que a recriação de uma Nova Avenida, que perdurará por largas décadas, não se resume, nem se poderia resumir, a uma vontade pessoal de deixar uma marca, a verdade é que não há como deixar de olhar para uma Avenida moderna, que rompa com o conceito tradicional mantendo os elementos históricos, como uma espécie de tradução para o espaço público de uma governação com essa marca, a de trazer a cidade para a modernidade, mantendo os seus traços característicos.

Por último, o prisma do Cronos é inevitável de abordar. Há um certo conservadorismo no ser humano que se explica pela tristeza do andamento inexorável do tempo. Só que o uso do solo, particularmente nas vias urbanas que o automóvel dominou nos últimos 100 anos, tem os dias contados. O avanço tecnológico trará novas formas de nos deslocarmos na cidade e o espaço público terá de acompanhar essa mudança de profundo impacto, ainda não sentido no seu todo mas que se anuncia a passos largos. E um espaço como a Nova Avenida, virada para o usufruto do cidadão, como peão, humanizada, vivida como uma Ágora, é uma lufada de ar fresco e de modernidade, que, se respeitar a evocação histórica de Vila Real, tem tudo para conquistar os seus habitantes.

Esse é o último prisma, o de que Carvalho Araújo merece uma homenagem assim.

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